Paulo Brighenti
is this desire?
20.12.2008 > 28.03.2009


Conversa com: João Miguel Fernandes Jorge, Paulo Brighenti e
Miguel von Hafe Pérez
Porta33 > 20.12.2008
NEL PARADISO
PAULO BRIGHENTI. OITO PINTURAS A ÓLEO E ALGUNS DESENHOS



Escrever sobre esta exposição de Paulo Brighenti resulta no ordenar uma imensidão de dados. Um puzzle para o qual me falta sempre uma peça ou o sítio exacto onde a colocar, e assim caminhar por uma correcta processão. Primeiro, há que justificar o título deste texto, que tem a ver directamente com uma das suas, muito corroídas, mais do que pelo desejo — apesar do título que o artista deu ao seu trabalho, Is this Desire?— por um nível de distinção entre a realidade e a existência, presente entre personagens.
«Sim. São as 'Três Graças'. Mas o que lhes fizeste? A do meio é obviamente um homem.» Disse ao Paulo Brighenti quando me mostrou uma das pintura. Fez-me apenas notar o perfil da personagem da esquerda, que poderia ser, esse sim, masculino. «Mais do que o perfil» — respondi-lhe— «ela tem o que caracteriza a masculinidade.» A sua imagem, como perso­nagens formulando as «Três Graças» (mesmo que cheguem ao espectador sob o título inócuo de um S/ Título)
fazem-se ver e entender, apesar da sua imagem turva e não exactamente definida, pela realidade. Isto é, através das condições necessárias para que delas se possa falar enquanto coisa de amor e não como simples figura de pintura.
Foi este salto dentro da representação comum das Três Graças que me levou ao título. A D. H. Lawrence e ao seu romanceWomen in Love. De imediato vi as duas mulheres Úrsula e Gudrun e um dos homens por quem estavam apaixonadas. Mas logo uma delas se ausentou para que os dois personagens masculinos do romance e apenas uma das mulheres dessem lugar à formação da pintura. Leitura, que múltiplas cenas do romance permitem. Ao chegar a casa, procurei entre as obras de Lawrence, Women in Love. Não o encontrei. Então abriAaron's Rod, pois esse outro romance de Lawrence passa-se em grande parte em Florença (eu sei que Brighenti prefere Nápoles, e mais uma vez a presença e o tratamento da imagem de um vulcão, numa pintura mural numa das paredes da Porta 33, o irá confirmar), na página em que se inicia o capítulo «Nei Paradiso». Pareceu-me possível o título, com o seu envio ao Baptistério, dado pelas primeiras frases. Elas descrevem o Baptistério visto de uma loggia sobre a praça, cónico, cinzento (sob um olhar a partir do telhado); a que se segue o rosa, o branco e o verde da pedra. O cinza e o verde que são, de resto, as cores em domínio nestas pinturas. Mas, no que respeita ao título deste texto, fiquemo-nos por aqui. E também no que respeita a esse «S/ Título» em que as «Três Graças» se deixam dissolver pela intensidade da percepção e passam sucessivamente de três mulheres a duas mulheres e um homem e, por último, a uma só mulher (a da direita) e dois homens. É que os fenómenos não são quantificáveis (mesmo em pintura), senão pela sua forma, enquanto surgem objectualizados no espaço e no tempo. Mais do que a sua matéria, é a sua forma (a intuição da sua forma, mesmo) que é susceptível de grandeza extensiva.

Isto é o Desejo? Será isto o Desejo? E No Paraíso não há lugar para o desejo. Todavia, a interrogação abre espaço a estes verdes corroídos, a estas superfícies espelhadas, que têm existência (um existir que se confunde com a própria sombra, com a própria queda, com o lento tempo da ruína) através de várias camadas da mesma forma. (E se fosse o pintor a dizer-nos «através de várias camadas da mesma forma», estou certo de que substituiria a palavra «forma», por coisa.) Coisa que resulta, no conjunto das 8 pinturas (entre 144x120cm e 60x50cm), na visão de uma imagem acentuadamente turva e não definida.
Procede Brighenti (e particularmente nestes óleos) a um escavar a origem da figura. Como quem persegue um antecipar da percepção. (Talvez não tenha andado demasiado longe quando coloquei estes corpos e fragmentos de corpos no lodo e na poeira do paraíso.) Aí descansa a construção da pintura. Que se baseia numa qualidade que não pode ser deduzida, pois ela é a matéria de um fenómeno: o afecto e o efeito de uma coisa em si sobre a sensibilidade. Neste caso, esse a priori que agiu sobre o plano desencadeador da obra foi um determinado espírito de museu. Um plano simbólico exercido pelo poder da escultura (forma, visão, volumetria, idealização, sentido de representação, peso histórico), que se reflectiu, sob a presença de uma escala humana, num congelamento de intenções e de projectados espaços pictóricos. A posteriori— uma «cabeça» que se inclina sobre a sua sombra, como se fosse o seu próprio sangue eternizando-se em mancha de melancólico verde ou «flores» que se esmagam no limite de imagem e brilho verde e cinza — a pergunta surge: é ou será isto desejo? E nesta interrogação está o conteúdo da experiência da pintura e também de um corpo de desenhos (em que o cinza das tonalidades como que mergulha as figuras numa penumbra líquida), que neste dezembro de 2008 Paulo Brighenti traz à Porta 33.

Por detrás da pintura está a escultura. Refiro-me, claro, a este tempo e espaço exacto de pintura que Brighenti nos dá. Um corpo habita estas imagens. Escultórico. Que segue o modelo antigo. Por vezes figuras inacabadas. (O inacabado igualmente se insinua nas pinturas e nos desenhos. Um inacabado ideado, apesar da intensidade de trabalho — e de pesquisa — que se pressente na construção de cada um dos óleos.) Um corpo escultórico carregado pelo sentido de não terminado, mais do que pelo de destruído. No entanto, a esse inacabamento, acresce a presença do gasto, do corroído pelo próprio tempo à semelhança da própria imagem do homem. A interrogação Isto é Desejo? procura a sua existência perceptiva numa categoria de realidade que vem de longe. Estabeleci-lhe como fonte os lodos do paraíso, onde pode ter caído e onde ficou pousada, como no fundo de um abismo, a belíssima cabeça verde da sua pintura, adormecida em dor ou em desejo. Mas o mais certo, em coisa nenhuma. Somente desperta e atenta a toda a Brighenti ainda não abandonou Nápoles por agora. O facto é que o tema do vulcão continua a perseguir a sua obra. Desta vez, é provável que o óleo de Pierre-Jacques Volaire, «Erupção do Vesúvio visto de Santa Lúcia» (c.1785), que terá visto no Capodimonte, tenha sido o motivo detonador do «Vulcão c/ anamorfose» que vai pintar, como mural, numa das paredes do rés-do-chão do espaço do Quebra-Costas. Desconheço em que residirá o fenómeno da anamorfose (espero para ver). Talvez nas chamas do vulcão. Acredito que deva mais ao fogo do que ao crânio que os embaixadores de França na corte de Henrique VIII fizeram Hans Holbein pintar junto às suas figuras («Os Embaixadores», 1533). O fogo descerá sobre o ilusório paraíso desta ilha da Madeira. Não o desejo. Nem tão pouco a peste, um dos outros temas que foi tão caro ao espírito dos pintores napolitanos. Mas o verde e cinzento das oito pinturas não anda distante dos tons de Andrea Vaccaro (1604-1670), Salvator Rosa (1615-1673), Luca Giordano (1634-1705), Gennaro Greco (1667-1714), Baldassare De Caro (1689-1750) ou Michele Pagano (1697-1750), todos eles autores napolitanos, que além da pintura sacra e de temas da antiguidade clássica, trataram paisagens, caprichos e pastorais onde um verde musgo tomou graduações que descem dos cinzas aos brancos.
É o momento de passarmos a um espaço e grandeza, a um quantum, a qualquer coisa que pode ser medida. Que é susceptível de influência, mas que em si mesma já não a possui. Este é um dos aspectos mais singulares que Brighenti me sugeriu no desenvolvimento do seu trabalho recente, quando me referiu o grupo de mármore do Museu Vaticano que representa «Laocoonte com os Filhos». A obra está atribuída aos escultores de Rodes, Agesandro, Polidoro e Atenodoro (2a. met. séc. I a. C.).
Em parte disse-me Paulo Brighenti: «Como na canção de P. J. Harvey, as 'cabeças' tornam-se o gesto da pintura que acompanha a superfície. Cintilações sobre a mesma superfície, densidades sucessivas, zonas escuras, buracos, esboroamentos matéricos é o que são estas 'cabeças'. Envolve-as uma extensíssima cobra, tal como as que ligam uns aos outros as figuras do Laocoonte. Esse elo de união é a densidade, a cor verde, os esboroamentos e tudo o que sucede na representação da figura e na liquidez da sua sombra. Parecem tranquilas, as 'cabeças'? Longe disso. Todavia, representam uma história sem haver história nenhuma, tal como o que é implícito na chegada e na fuga do desejo.»
Laocoonte, lendário príncipe troiano, aconselhou em vão, durante a Guerra de Tróia, os seus concidadãos a não introduzirem o cavalo de madeira na cidade sitiada. Atena, deusa protectora dos gregos, para se vingar, enviou-lhe duas serpentes descomunais que o enlaçaram e mataram; e com ele, os dois filhos. A esta figura se prende a «cabeça» que se esvai no verde da sua sombra ou como ocorre num dos outros «S/ Título», em que dois corpos se amparam e se debruçam sobre um hipotético espaço líquido. Nestes, a evidência da estatuária, mais do que a da escultura, introduz a melancolia. Nestas duas figuras, os dedos, na modulação do barro, marcaram a imprecisa precisão da forma e o pintor passou-a, posteriormente, à tinta.
Gotthold Ephraim Lessing (Laocoonte, 1766) aproxima a vítima dos poderes mortais da deusa Atena, dos infortúnios de outros heróis da mitologia grega, como Hércules e Filoctetes. Retratados, no sofrimento, com grandeza de ânimo, nas tragédias de Sófocles. O sofrimento foi também o verdadeiro tempo do herói da antiguidade; essa sua dor é um tempo inacabado, corroído de uma tonalidade verde e cinza onde repousa a imagem homem. A nossa própria imagem. «As obras dos antigos, que são as mais estimadas, têm qualquer coisa mais do que a pura simplicidade para se tornarem recomendáveis. O Apolo, a Vénus, o Laocoonte, o Gladiador têm uma certa composição de acção, têm contrastes suficientes para lhes dar um alto grau de energia». Joshua Reynolds, Discourses on Art, (VIII, 1778). Guardam em toda a sua beleza descrita e em todo o seu tormento a ideia moderna e contemporânea de sublime. A que Brighenti atenua a carga tempestuosa, para lhe introduzir um sentido fantasmático, acrescido de melancólica corrosão. Refiro-me, particularmente, aos seus óleos em que se figura uma visão de um cosmos, de um grande planeta com o seu brilho baço ou de um óvulo (viajante num espaço de Empédocles) carregado de vida e de desejo e de natural malignidade.
Regressemos ao «S/Título» das corroídas «Três Graças». Também o tempo passou demasiado por essas estranhas figuras. Formou-as e sucessivamente foi-as desfigurando e nas três personagens encenou uma delineação de limites, de contornos, de figuras de consciência ou de espírito. Coisas vagas, de um ver de aparição, de uma abertura e de um fechamento sexualizado, que é golpe, ruptura, duplicidade. Personagens perdidas, que na (in)disciplina do corpo querem saber, desde a densidade do verde queimado, se o desejo é de facto mesmo aquilo, aquele espaço em que estão plasmadas. Serão, entre si, uma espécie de figura, contra-figura e vaga-figura.

João Miguel Fernandes Jorge
Dezembro de 2008





João Miguel Fernandes Jorge: biografia (resumo)

Poeta, ficcionista e ensaísta. O seu último livro sobre crítica de arte foi Processo Em Arte, Relógio d'Água, Lisboa, 2008. A sua última recolha de poemas e textos, A Palavra, sobre os filmes de Carl Th. Dreyer, com obras de José Loureiro, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, 2007.
Em colaboração com a Porta 33, escreveu textos para José Loureiro (1994), António Palolo (1994), Rui Chafes (1998) e Paulo Brighenti (2008). Comissariou as exposições: Uma Jornada (Paulo Brighenti e Rui Vasconcelos, 2001) e Santos & Bestas (Bárbara Assis Pacheco e João Cruz Rosa, 2004). Apresentou o livro O Lugar do Poço, Relógio d'Água, Lisboa, 1997, em co-autoria com Rui Chafes (1998).





Uma Jornada

Paulo Brighenti e
Rui Vasconcelos

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