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Se tivesse que definir o meu trabalho numa palavra ela seria: intensidade. 
O meu desenho é  um  desenho físico e fisiológico,  não sou um artista conceptual, trabalho mais com o corpo e com a intuição, só penso a seguir. "pensar é superficial " Marcel Proust. 
Existe um trabalho de ritmo e de elevada concentração,  e o corpo é o meu instrumento. O Corpo na sua totalidade, não  só o cérebro,  não só a mão. O meu desenho é um desenho de campo alargado, no sentido em que os desenhos estão mais ligados à literatura, à música, à poesia e ao cinema do que à história da pintura, por exemplo. Alguns do desenhos são filmes, são desenhos-filme. Neste workshop de 9 horas quero criar uma atmosfera de intensidade e imersiva. Mostrarei todo o meu trabalho, processo, fontes e universo à volta. No fim da aula proponho um exercício de longa duração que os participantes poderão desenvolver ao longo do tempo, sem mim.

Rui Moreira vive e trabalha em Lisboa, os desenhos inspiram-se nas suas viagens e os destinos são escolhidos com grande cuidado. Em seu retorno, desenha sem interrupção, executa uma espécie de exercício mnemônico revivendo o ciclo natural de cada espaço. O trabalho resulta da repetição de uma simples ação: o artista pacientemente, enche o espaço inteiro de seus desenhos até que seu corpo esteja exausto das condições excessivas de imobilidade e gravidade como uma intensa meditação memorial.

"Não se pode acelerar nem desacelerar o tempo da arte, tal como não se pode acelerar ou desacelerar o amor"

Entrevista a Rui Moreira
Por Susana de Figueiredo
Domingo, 3 de Fevereiro de 2019

Rui Moreira nasceu em 1971, no Porto. Até aos 3 anos, viveu em Trás-os-Montes, terra donde trouxe imagens e experiências tão fortes que sobrevivem, ainda hoje, nos seus desenhos – ou no desenho contínuo que se ergue como um único corpo – Não esquece o dia em que o pai atravessou o fogo para o levar ao hospital, e diz, com humor, que, logo ali, “a coisa começou a aquecer”. Talvez tenha sido essa a sua primeira imersão na coragem, na intensidade. Senhor do seu próprio tempo num mundo onde impera a ditadura da velocidade, recusa-se a acelerar o que não pode ser acelerado.

 

Como definiria este encontro imersivo?
Isto é uma proposta para as pessoas sentirem o que querem fazer na vida. Quem não quiser fazer arte nunca vai fazer este exercício, e isso não tem mal nenhum, porque cada um faz o que quer da sua vida. O problema, hoje em dia, é que há muitas pessoas que não são artistas a julgarem que estão a fazer arte e a exporem nos museus coisas que não são arte. Mas não vamos por aí, pois esta é uma polémica que daria muito que falar [riso].

Exige-se algum talento para o desenho ao público que aceite dar este mergulho?
Sou muito aberto nesse sentido. Acho que podemos ter surpresas maravilhosas com pessoas que não desenham ou que estão a começar, ou também podemos não ter. E, para mim, está tudo bem. Já tive experiências maravilhosas, com alunos sem escola ou quase sem escola a fazerem desenhos incríveis, e o contrário, alunos com muita escola que fizeram uma porcaria de um trabalho [riso]. Claro que é bom se as pessoas souberem desenhar, mas isso não é o mais importante. O que eu proponho é, sobretudo, um exercício de concentração. Se uma pessoa tiver muita vontade de viver esta experiência, mesmo sendo pouco experiente com a mão, vai retirar dali prazer, e isso será visível no desenho. O objetivo não é a perfeição plástica.

Num tempo sem tempo, em que a velocidade dita praticamente todas as regras da vida em sociedade, ainda é possível desacelerar?
O problema é que nós aceitamos de barato essa imposição da velocidade. Apesar das novas tecnologias, um livro ainda demora o mesmo tempo a ler, um desenho vai ter de ter o seu próprio tempo. Não se pode acelerar nem desacelerar o tempo da arte, tal como não se pode acelerar ou desacelerar o amor. Portanto, o imediatismo é uma mentira.

Mas há uma enorme pressão no sentido inverso, vivemos num mundo que gira em torno de para prazos [cada vez mais curtos].
Vão todos indo, depressa, que eu depois vou lá ter [riso]. É o que eu costumo dizer.

Recusa-se a abrir mão do tempo. Do tempo que falta.
Entendo que, para fazer qualquer trabalho bem feito é preciso tempo. É verdade que já não nos dão esse tempo, mas, em qualquer profissão, uma das grandes lutas deve ser pelo tempo.

Quanto tempo demora, em média, a fazer um desenho?
Cerca de quatro meses. São desenhos numa escala entre 1.70m e 2,40m, com muitos pormenores, e levo o tempo que tenho de levar. Claro que sinto uma pressão enorme do exterior para ser mais rápido, mas, para mim, é mais importante a obra do que a rapidez do mercado. 

É-lhe difícil determinar o fim a um desenho?
Normalmente, o desenho não acaba, porque passo logo para o próximo. Por norma, o desenho chega ao fim quando a folha está cheia [riso].

Trata-se, então, de um processo contínuo, como o poema de Herberto Helder, um dos autores que lhe serve de inspiração.
Exato. É mesmo um processo contínuo, imagino os meus desenhos como um todo, como um único corpo.

O pensamento de Marcel Proust também cabe nesse todo. Nesse corpo uno que resulta da vida real realmente vivida.
Sim. Proust passou a vida quase toda a observar. Só perto do fim, quando já estava doente, num quarto, é que escreveu 'Em busca do tempo perdido'. Trabalhou a vida inteira com a observação e a memória. 

Afirma que se tivesse de definir o seu trabalho numa só palavra, essa palavra seria 'intensidade'. A intensidade também se constrói a partir da memória?
Sem dúvida. Eu não tenho nada contra a passado, como não tenho nada contra o futuro, mas não sou futurista. A intensidade vem também da paixão, vem da entrega. Vem da nossa coragem, vem de estarmos sem defesas, vem de nos atirarmos para coisas que não sabemos onde vão dar, mas que chamam por nós. Vem do risco. E pode correr bem ou mal.

A velocidade é inimiga da intensidade?
É. Temos de saber respeitar o ritmo de cada coisa.

Parece-me que temos um enorme temor da intensidade.
As pessoas têm muito medo da intensidade, e como têm medo não vivem. O medo é o oposto do amor, com medo não se ama, não se ama os outros, não se ama o trabalho; fica-se pelo medo.

É preciso ter coragem… E talvez não tenhamos muita, ou a suficiente.
Pois… mas a coragem não tem que ver apenas com força, a coragem é também admitirmos a nossa própria fragilidade, a fraqueza na força, a sombra na luz.  Nós somos todos feitos de contradições.

As muitas viagens que faz são parte importante dessa experiência de intensidade que habita o desenho contínuo?

Os desenhos são o resultado da vida, são o que sobra.

Viveu, até aos 3 anos, em Trás-os-Montes. Como aconteceu o seu encontro com a arte/vida? O que sobrou desses primeiros anos para o desenho?
Vem tudo daí. Guardo algumas imagens, todas elas fortíssimas, que estão até hoje no meu trabalho. As primeiras de que me lembro são de incêndios, lembro-me de ver incêndios mesmo ali ao lado. Lembro-me de, ainda bebé, passar de carro, com o meu pai, pelo meio de um fogo. A polícia não nos queria deixar seguir, mas eu tinha de ir ao hospital, no Porto, e o meu pai arriscou e passou pelo meio do fogo. O calor era tanto que apanhei uma insolação, e por conta disso fiquei internado umas semanas. Logo ali, a coisa começou a aquecer [riso].

Que viagem… Era uma vida intensa, a vida no campo?
Era. E eu cheguei mesmo a viver no meio do campo. Recordo-me também dos lobos a atravessarem a estrada, à noite, de bois com uns cornos gigantescos, dos cheiros, das pessoas dali, que só comiam carne, muito brutas, mas, ao mesmo tempo, muito acolhedoras. A força do passado também vem daqui, dos primeiros dias da minha infância.

Começou a desenhar muito cedo?
Comecei a desenhar muito cedo, quando ainda usava fraldas, mas não eram desenhos cliché [riso]. Desenhava em papel higiénico, e abria um buraco numa caixa de sapatos para fazer uma espécie de televisão - Enchia dois rolos de papel higiénico com desenhos, punha-os a rodar, e fazia um filme. Isso é algo que está intimamente ligado àquilo que eu faço hoje, e que é muito cinematográfico. Eu gostava era de fazer cinema, mas tenho um problema com as máquinas, com todo o tipo de máquinas, então, faço os desenhos.

Como quem faz cinema?
Para mim, a maior parte dos desenhos que faço são filmes. Filmes sem princípio nem fim.

Além do cinema, há outras expressões artísticas a alimentar o seu trabalho. A vida real que transborda nos seus desenhos nasce de muitas formas de vida.
É como na adolescência. Quando eu era adolescente, além de fazer muitas asneiras, tinha o quarto cheio de posters das bandas que eu gostava, de obras de arte, e tinha uma aparelhagem onde punha música muito alta. Ninguém entrava ali, aquilo era o meu mundo, e o meu atelier, hoje em dia, é a mesma coisa. Estão lá os livros que eu gosto, a música, os filmes, e isso vai tudo para os desenhos. São as coisas da vida vivida, da vida real. Às vezes, as pessoas olham para o meu trabalho e podem pensar que este é mais onírico, mas não é nada, está profundamente ligado a coisas que me acontecem na vida, ao mundo real. É quase um documentário.

Vem à Porta 33 com toda essa 'bagagem'?

Vou levar muita coisa, inclusive música. Embora não tenhamos muito tempo - as pessoas acham que oito horas é muito tempo, mas não é, eu era capaz de pôr o dobro neste encontro. Se durasse vinte e quatro horas faria todo o sentido - 

O principal desafio desta imersão é...
Eu abro-me por dentro para vocês me verem todo, com as vísceras, os ossos e a alma. E vocês fazem o que quiserem com isso. No fundo, o exercício é este, é a tal coisa da intensidade.
Os artistas têm uma posição de fragilidade, uma fragilidade que assusta. São antenas, porque veem e absorvem tudo o que está à volta. 

A fragilidade dos artistas é, também, a sua força?
É. Os artistas têm de ter uma certa sensibilidade para captar as coisas do mundo, mas, ao mesmo tempo, também têm de estar abertos à exposição, têm de ter aberturas, têm de se expor, talvez não a toda a gente, mas aos seus 'irmãos' artistas ou não-artistas, porque isto não tem de ter segredos ou receitas. E, ao abrirem-se assim, completamente, em fragilidade, podem passar alguma coisa, podem fazer com que os outros também tenham vontade de fazer o mesmo, de uma outra maneira. 

Uma experiência de contaminação?
Uma provocação.

Daí que o mais importante não seja ter 'mão para o desenho'.
O mais importante é a intensidade. E eu também espero receber intensidade, senão, no fim, fico vazio. Vou abrir-me completamente, expor-me intimamente, não tenho de esconder o meu processo. Há pessoas que me dizem: "tu dizes tudo, os outros vão copiar-te" [riso], mas isto é impossível de copiar. Isto é para partilhar. É uma experiência coletiva, e eu só espero que corra bem. Correrá, se as pessoas se entregarem mesmo, o encontro é isso. Às vezes temos encontros, outras vezes não. Se eu conseguir que uma pessoa fique com um bichinho dentro, a remoer durante alguns anos, já ficarei feliz. Então, vamos lá pôr-nos todos nus, porque isso é natural. Não há nada a esconder.

Diz que o seu desenho é eminentemente físico e fisiológico. Refere-se à consciência do corpo enquanto objeto de experimentação da própria arte/vida?
Quando eu andava na escola, a ideia que os professores me passavam era a de que o desenho tinha de ser uma coisa de mão. A mão é importante, mas, para mim, não é só a mão. Depois, havia outros que diziam que o importante era a cabeça, o pensar bem, ler muitos livros. Claro que tudo isto é importante, mas também não é só isso. É o corpo todo. Porque nós sentimos com o corpo todo, com o coração, com a cabeça, com os ossos, com todos os órgãos. Eu faço imenso exercício físico, precisamente para não me esquecer que tenho um corpo.

No entanto, o corpo tende a ser menorizado, a ter alguma má reputação…
O corpo tem uma péssima reputação, e, no entanto, é o único que temos [riso].
Para mim, o corpo é o espírito, não há diferença entre um e outro. Mas depois temos de levar com coisas como o pecado, como o desprezo pelo corpo em detrimento do espírito.

O artista tem mais viva essa consciência do corpo? Essa disponibilidade, ou coragem, para sentir com o sangue todo?
O artista não tem de, nem quer, ser posto num lugar especial. Eu sou um gajo qualquer, mas gosto de poesia e gosto de viver a vida com poesia. Com a obra, muitas vezes, o corpo do artista desaparece, a obra absorve-o [Herberto fala disso], contudo, na verdade, ele continua a existir, a pessoa continua a ter pulmões, cabelo, fome, sede, alegria, tristeza… Ainda que as pessoas, a dada altura, comecem a imaginar só um espírito e não alguém de carne e osso. Porém, não é assim. Somos pessoas normais, e não queremos ser comidos pela nossa obra.

 

Sobre Rui Moreira:

Estudou Artes Visuais no Ar.Co, Centro de Arte e Comunicação Visual (Lisboa) e na School of the Art Institute of Chicago (EUA). Atualmente, vive e trabalha na cidade de Lisboa. O seu trabalho alimenta-se de várias linguagens artísticas, como a literatura, o cinema ou a música, e das inúmeras viagens que já o levaram aos mais inóspitos lugares do mundo. Nutre uma paixão particular pela poesia e pelo cinema, não concebendo a arte/vida sem intensidade. Enquanto viajante, procura submeter-se a experiências fisicamente intensas, porque acredita que o corpo, uma vez exilado, se torna mais alerta, intuitivo e concentrado, numa espécie de modo de sobrevivência. Desenha como quem faz cinema – diz que só não é realizador por conta da sua incompatibilidade com as máquinas –, mas isso não o impediu de fazer filmes em papel. Influenciado por nomes da sétima arte como Tarkovsky, Mizoguchi, Hitchcock, Béla Tarr, Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard, entre muitos outros, incluindo os portugueses Manoel de Oliveira, João César Monteiro e Marta Mateus, faz da sua obra uma extensão de si mesmo, a vida real revelada sobre o papel. O homem e o artista entregue na sua inteireza. Nu. Na sua intensidade. A arte vivida com todas as veias do corpo como caminho(s) para alcançar novos territórios artísticos.
Os seus desenhos em grande escala podem levar largos meses a ser concluídos, o importante, insiste, é respeitar o ritmo certo das coisas.

Exposições individuais: Centro Internacional das Artes de Guimarães, Portugal, 2016; Pavilhão Branco, Lisbon, Portugal, 2016; MUDAM, Luxembourg, 2014; Galerie Jeanne Bucher, Paris, France, 2014; Fundação Carmona e Costa, Lisbon, Portugal, 2009.

Exposições coletivas: LUSOSCOPIE, Paris, France, 2017; Passion de l’art Galerie Jeanne Bucher Jaeger depuis 1925, Musée Granet, Aix-en-Provence, France, 2017 DRAWING NOW, with Galerie Jeanne Bucher Jaeger, Carreau du Temple, Paris, France, 2016; Le Contemporain dessiné, Les Arts Décoratifs, Paris, France, 2016; ART DUBAI, with Galerie Jeanne Bucher Jaeger, Dubaï, United Arab Emirates, 2016; Dialogue VIII, Galerie Jeanne Bucher Jaeger, Paris, France, 2016; Quinte-Essence air-water-earth-fire-ether, Galerie Jeanne Bucher Jaeger, Paris, France, 2015; Art Saint-Germain-des-Prés, Galerie Jeanne-Bucher, Paris, France, 2015; Oracular Spectacular, Centro Cultural Vila Flor, Guimarães, Portugal, 2015; (DÉ)PLACEMENTS – carte blanche to Koyo Kouoh, Collection Société Générale, Paris – La Défense, France, 2015; ART BRUSSELS, with Galerie Jaeger Bucher, Brussels, Belgium, 2015; ART DUBAI, with Galerie Jaeger Bucher, United Arab Emirates, 2015; La Route Bleue, avec Paul Wallach et autres, Fondation Borghossian, Villa Empain, Bruxelles, Belgium, 2013.

 

Rui Moreira, The Holy Family, III. 2014
SÁBADO 9 FEVEREIRO 2019

O GESTO-MUNDO, DESENHO DE TEMPO ALARGADO
workshop de desenho por Rui Moreira

11h — 13h
15h — 20h

LOTAÇÃO MÁXIMA: 20 participantes por sessão.
Gratuito mediante inscrição, na PORTA33,
de terça a sábado das 16h às 20h | por telefone 291 743 038 / 91 616 57 20 | por email:porta33@porta33.com

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