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Por um fio
(exercícios e jogos livres de desenho, a partir de Philipe Petit, Harry Smith, Carolee Schneemann, Charlie Chaplin, Louise Erdrich, Sengai, Dennis Oppenheim, etc.)

O fio da navalha que afia o lápis, vai precipitar-se sobre o papel.
Abrir-se-hão frestas, alçapões, trampolins.
O branco do papel é muito parecido com um espaço vazio, um vão. A linha é vertigem, e é ressalto: faz-nos atravessar — de um lado para o outro.
Ana Hatherly disse que “o escritor foi sempre um funâmbulo cego”: como o equilibrista, quem escreve, quem desenha, está por um fio, o fio de uma história que se conta, de um traço na pele, ou de um sulco na água.

Estaremos à procura de um fio essencial, estaremos suspensos sobre o arame, sem rede.
Mas o bonito dessa suspensão, não é precisamente esquecermos que existe o fio?

 

Tomás Cunha Ferreira, Fevereiro 2019

Entrevista a Tomás Cunha Ferreira
Por Susana de Figueiredo
8 de Fevereiro 2019

 

“Creio que seria impositivo afirmar que não há vida sem arte. Para mim não há, mas não imponho isso, aceito que haja outras hipóteses.”

 

‘Por um fio’ vai o desenho, ‘por um fio’ se desenrola a vida. Uma e outra, tantas vidas. Uma e mais outra continuando outra. Outras. (Des)equilibramo-nos como quem desenha, pela mesma linha ou por linhas e entrelinhas, que ora se tocam ora se fundem. O desenho está para a vida como a vida está para o desenho. Fio por fio.
Tomás Cunha Ferreira, artista plástico, poeta, músico e, quem sabe, equilibrista vem à Porta 33 mostrar com que linhas se cose um desenho para lá de si mesmo, quando “o fio da navalha que afia o lápis” se atira ao papel, desbravando o caminho até à “vertigem”. Na verdade, a viagem começa já nesta entrevista, realizada por telefone, uma semana antes de o artista aterrar na Madeira. Eis aqui o pouso primeiro sobre a linha.

 

Nasceu em Lisboa, mas viveu no Brasil, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, até aos treze anos, altura em que regressa a Portugal. A pintura, a literatura, a música, mas também o cinema e o desporto, interessaram-no desde cedo e sempre soube que encontraria nas artes o sentido maior da vida. Assim foi e é. Por uma linha que nunca fecha círculos e vai de um lado ao outro do plano. Em tudo.

Para começar, pode falar-nos um pouco sobre o fio que traz à Porta 33, no próximo sábado?

Claro que sim. Na verdade, há muitos meses que ando a pensar nisto. Vou centrar-me, sobretudo, nos desdobramentos da linha. Vou falar sobre Philippe Petit, o acrobata/funâmbulo francês que fez a travessia entre as Torres Gémeas em cima de uma corda de aço [a 7 de agosto de 1974]. Há um documentário sobre ele, que se chama ‘Man on wire’, e fala desse seu gesto artístico. Philippe Petit escreveu muito sobre aquilo que fazia, o funambulismo e a acrobacia, e focava-se essencialmente no fio, na linha, na disciplina e numa série de outras questões que estão ligadas à prática do desenho. Portanto, no próximo sábado, farei, no fundo, uma ponte entre a acrobacia e o desenho.

Pegando nessa linha que une ambos?

Sim. No sentido em que a linha é uma característica comum, mas não é só uma característica, é o fio condutor das velocidades. O Philippe Petit passava imenso tempo a descrever a preparação do fio, e isso é muito próximo da atividade de quem desenha. Vou fazer referência a esse aspeto, vou preparar alguns exercícios, ou experiências, se preferirmos chamar-lhes assim.

‘Acrobacias’?

Não literalmente [riso], mas serão, de algum modo, acrobacias, gestos com o fio. Tenho estado a recolher muitas coisas que podem ligar o desenho a esta atividade que é caminhar sobre um fio, equilibrado sobre o vazio, entre dois pontos pré-estabelecidos; aliás, essa loucura que o Petit fez, atravessar as Torres Gémeas, começa com um desenho. Ele viu uma imagem das Torres, ainda em projeto, numa revista, e, com uma caneta, desenhou uma linha entre os dois edifícios, ou seja, o desenho está muito ligado àquilo que ele veio a realizar muitos anos depois. Foram anos e anos de preparação, sendo que o primeiro gesto foi um desenho, associado à visão que ele teve, quando adolescente, daquela travessia. E essa linha que ele usou para ligar aqueles dois pontos vai, no fundo, ser a linha que conduz a minha proposta.

Uma linha que vai saltar do papel para as mãos?

Exato. Haverá mesmo linha, de lã, por exemplo, com a qual poderemos fazer jogos de mãos ou costurar o papel, envolver o corpo ou estabelecer uma ligação entre o corpo e um objeto, ou ainda entre a folha de papel e outro objeto.

A sua proposta passa, então, por uma experiência física, e não apenas concetual.

Sim. É óbvio que não colocarei ninguém em perigo [riso], mas, com as mãos, com o papel e com os olhos, proponho uma experiência física em que a linha toma corpo. Não é uma linha desenhada no papel, é uma linha que pode sair do papel, atravessá-lo ou atravessar o corpo, ou ser cortada, enfim, tantas coisas. Interessam-me estas palavras: linha, travessia, corpo, fio.

São palavras que estão para o desenho, mas também para a vida.

Precisamente. São palavras que podem ser comuns ao desenho, mas também à vida fora deste. Fio, plano, travessia são termos que usamos no dia-a-dia, ligados a questões que não se prendem com o desenho, contudo, o desenho não está desligado dessas questões.

E é comum, nas artes visuais, este tipo de olhar e reflexão sobre a linha e os seus desdobramentos?

Há muitos exemplos na História da Arte. O Paul Klee é um deles, a artista plástica brasileira Anna Maria Maiolino é outro, e há artistas japoneses dos anos 50 que trabalharam muito a questão da travessia do plano, de um lado para o outro do papel, que é, na verdade, aquela linha que o Philippe Petit desenhou.

 

“É importante esta experiência do desenho como o tempo que está a passar, e que, em simultâneo, se sente fisicamente. O desenho enquanto registo e experiência do tempo.”

 

O desenho insere-se na mesma dimensão da vida prosaica?

Sim. O desenho não é uma realidade à parte.

É até uma experiência muito primária.

É. Completamente. Como o Philippe Petit, há outras pessoas que não são artistas e usam o desenho: cirurgiões, músicos, xamãs de tribos primitivas. Há uma passagem na Bíblia em que Jesus Cristo se agacha e desenha com o dedo na areia. Vou levar à Porta 33 todas estas questões, e outras mais, que se prendem com uma certa efemeridade do desenho, ou desdobramentos, se quisermos, porque o desenho está ligado ao tempo, não como uma coisa fixa, mas como algo que implica uma experiência temporal. Quando se caminha sobre uma linha, isso faz-se lentamente. E é importante esta experiência do desenho como o tempo que está a passar, e que, em simultâneo, se sente fisicamente. O desenho enquanto registo e experiência do tempo.

O desenho enquanto gesto multidimensional.

Sim. O que me interessa é abordar o desenho de um modo que não seja ‘preto no branco’, com lápis e papel. O desenho não é necessariamente a representação de objetos que estão à nossa vista ou a representação de gestos ou coisas abstratas que podem estar na mente de alguém. O que me interessa é uma outra relação com o desenho, que não tem que ver com estas tradições do real ou do interior, tem mais que ver com o gesto, com a passagem do tempo, com o movimento. A este propósito, lembro-me sempre de uma música do Caetano Veloso, que diz que “a vida é a amiga da arte”.

Uma atravessa a outra. Uma está presente na outra.

É isso. E nem é só estar presente, é uma condição de quase enamoramento. Nem sei bem explicar… A vida e a arte não são a mesma coisa, mas uma gosta da outra. Nem sempre podem andar juntas, mas há ali um namoro, uma troca de experiências.

E se não houver esse namoro, a vida deixa de ser interessante?

Para mim, deixa. Mas não acho que a arte seja obrigatoriamente necessária para viver, é possível vivenciar estes desdobramentos de planos, de linhas da vida, através de outras experiências que não passam pela arte, como atravessar as Torres Gémeas na corda bamba, por exemplo. No meu caso, faço isso através da arte, mas não tem de ser assim para toda a gente. Creio que seria impositivo afirmar que não há vida sem arte. Para mim não há, mas não imponho isso, aceito que haja outras hipóteses. Por isso é que eu trabalho com circuitos abertos, não quero círculos fechados.

Pintura, poesia, música. Qual destas linguagens se fundou primeiro dentro de si?

É difícil dizer, porque, desde miúdo, gosto muito dessas coisas todas, mas também de teatro, de cinema, de desporto… Quando se é criança não se separa bem as coisas, mas lembro-me de ter consciência de que era isto que eu queria fazer, algo ligado à pintura, à poesia, à música, e lembro-me de viver intensamente esse desejo, através das coisas que os meus pais me mostravam – os livros e os discos que tinham lá em casa – era isso que me fazia vibrar. Há livros que me marcaram aos dez anos, porque estavam em cima de uma mesa ou numa estante e eu ia lá buscá-los. São livros que ainda hoje me marcam.

Como por exemplo…

O Augusto de Campos, por exemplo, é um poeta brasileiro concreto que me marcou muito, quando eu tinha onze ou doze anos, altura em que saiu o ‘Poemóbilis’, um livro dele que eu guardo até hoje; foi o meu pai que mo deu, é um livro de doze poemas, em formato pop up. São esculturas-poemas, uma narrativa entre o gesto, a palavra e a pintura. Há um outro livro, da Anna Mariani, uma fotógrafa brasileira que não é muito conhecida, e foi também muito importante para mim; chama-se ‘Pinturas e Platibandas’, e é, no fundo, um livro de pintura que resulta de uma recolha de fachadas de casas populares no Nordeste brasileiro. A minha escola de pintura é esse livro. Esse e o do Augusto de Campos são, para mim, duas obras formativas, para as quais continuo a olhar.

“Eu uso muito a palavra, escrevo bastante, mas não sou um escritor que publica. Não sou propriamente um poeta, uso a escrita como disciplina.”

De onde lhe nasce este interesse pela poesia visual?

Na minha escola, em São Paulo [Brasil], fazia-se muito poesia visual, aliás, em São Paulo, a poesia visual é uma corrente fortíssima, sempre esteve muito presente. Recordo-me de a minha turma publicar poemas nos jornais da cidade, havia essa cultura, e isso marcou-me imenso, esse lidar com a palavra.

Daí a veia aberta à poesia.

Eu uso muito a palavra, escrevo bastante, mas não sou um escritor que publica. Não sou propriamente um poeta, uso a escrita como disciplina. No entanto, o trabalho com a palavra, a consciência do peso que pode ter uma palavra, a consciência de que ela pode viajar para uma outra página, na qual outros olhos podem lê-la, tudo isto começou muito cedo em mim.
Até aos 13 anos, viveu no Brasil, entre o Rio de Janeiro e São Paulo, duas grandes cidades. Até que ponto essa experiência do ‘lugar’ o moldou? Teria sido alguém muito diferente se tivesse crescido em Portugal?
Seria diferente, sim. mas não troco isto por nada. E hoje, sinto-me plenamente de Portugal, já não quero voltar para o Brasil, ainda que vá lá muitas vezes.

Quando regressa, e se instala em Lisboa, a adaptação a uma nova pátria foi difícil?

Foi bastante difícil. Sentia-me brasileiro, e demorei muitos anos a aterrar em Lisboa [riso].

Do que sentiu mais falta?

Do espírito do lugar, do sal do lugar. Era aquele sal [do Brasil] que me fazia crescer. Lisboa era completamente diferente [vim em 1986]. Do que senti mais falta foi do espírito que se sentia no ar, no Brasil. Em Lisboa, tinha medo de andar nas ruas, medo de ir para a escola, enquanto no Brasil não tinha medo de nada, mesmo sendo, por vezes, assaltado. Depois, as pessoas falavam comigo e eu não as percebia; na escola chamavam-me nomes por eu ser brasileiro, nomes cujo significado eu desconhecia [riso].

 

“[O Jacinto Lucas Pires] foi o primeiro amigo com quem eu senti empatia, foi uma espécie de boia de salvação. Era ele o meu grande amigo da escola, e essa amizade mantém-se até hoje.”

 

Tem ascendência brasileira?

Tenho, sobretudo bisavós. Histórias de procura de uma vida diferente através da emigração.

Como olha para a atual situação do Brasil?

É difícil… Na verdade, tenho muitos amigos a mudarem-se para Portugal. Músicos inclusive. Já não preciso de ir ter com eles para trabalhar [riso]. Quando vivi lá, não tinha consciência da ditadura em que se vivia. Era uma ditadura à brasileira [riso]. Sobretudo para uma criança, não se notava nada, mas eu lembro-me das primeiras eleições diretas, em 84, e isso foi muito marcante. E agora há uma espécie de regresso a um sentimento que existia antes daquelas eleições, a um ambiente que parecia que já não iria voltar. Há um certo medo no ar, ninguém sabe o que vai acontecer a seguir.
Diz que a amizade com Jacinto Lucas Pires, com quem viria a desenvolver o projeto musical ‘Os Quais’, de certo modo, o salvou, aquando da ‘aterragem’ em Lisboa.
Foi o primeiro amigo com quem eu senti empatia, foi uma espécie de boia de salvação. Era ele o meu grande amigo da escola, e essa amizade mantém-se até hoje. Por falar nisso, está para sair, muito em breve, o novo disco d’ ‘Os Quais’, que se chama ‘Geral’.  

E o que há em ‘Geral’?

É um disco feito em ponte transatlântica, à semelhança do que temos vindo a fazer. É produzido por um músico brasileiro e tem muitos amigos brasileiros e portugueses a participar. Voltamos, assim, a trabalhar nesta espécie de ‘mid-atlantic’, uma expressão inglesa que, diz o Caetano Veloso, foi criada pelos Beatles, para definir um sotaque que não é nem inglês nem americano, mas ‘mid-atlantic’, ou mesoatlântico. A Madeira também tem este ponto mesoatlântico, que é algo que me interessa muito, não só na música, mas em todos os tipos de arte. Tem que ver com a minha história pessoal, com o facto de me sentir bastante no meio, dividido entre dois pontos. E o disco vai neste sentido, embora lá dentro haja mais coisas.

Também viveu na Suíça e no Japão. Como foram estas experiências?

Sim, em situações mais temporárias, nomeadamente de bolsas de estudo. Vivi seis meses no Japão e um ano na Suíça. Posso dizer que repetiria qualquer uma destas experiências, os lugares interessam-me, e são experiências como estas que eu tenho buscado.

Como fonte de inspiração e experimentação?

Exato. Zurique tem imensas ligações a São Paulo. Muitos artistas foram para São Paulo vindos de Zurique, durante a Segunda Guerra Mundial. A Poesia Concreta é um movimento que começou mais ou menos em simultâneo nas duas cidades, e essa relação interessava-me, sentia-me como se estivesse a regressar a São Paulo. As pessoas pensam que a Suíça é só o lugar dos relógios e dos chocolates, mas está longe de ser apenas isso [riso], há ali muitas outras coisas.

E no Japão, o que o cativou?

No Japão, interessavam-me as coisas ligadas à arte, à poesia, à pintura.

 

“Gosto de usar tecidos que já foram abandonados, restos, papel usado que encontro em feiras de rua, coisas que já foram começadas e às quais posso dar um novo caminho (…)”

 

É importante, para um artista, cultivar esse espírito nómada?

No meu caso, é. E isso tem-se refletido bastante naquilo que eu faço: coisas que posso dobrar, meter numa mala e, chegando ao destino, desdobrá-las. Coisas transportáveis, que têm que ver com esta questão da travessia, do nomadismo. É uma espécie de arte pobre que pode viajar por ser pobre, por não ser preciosa, no sentido em que se pode mexer nela e transportá-la, sem necessidade de acondicionamentos especiais. Tenho preferido materiais que permitam esta portabilidade, como fios e palavras. Isso tem sido quase uma condição. Se não se puder transportar, não faço [riso]. Não sou dogmático, mas esta questão do nomadismo é realmente importante.

E que materiais são esses, além dos fios e das palavras?

São, sobretudo, materiais usados. Gosto de usar tecidos que já foram abandonados, restos, papel usado que encontro em feiras de rua, coisas que já foram começadas e às quais posso dar um novo caminho, continuando um processo que outro, ou outros, iniciaram.

Essa ideia tem que ver com o conceito ‘ontemporâneo’, neologismo por si criado, para aludir a uma espécie de fusão de tempos, em que o ontem e o agora acontecem em simultâneo?

Tem um pouco que ver com isso, sim, e com o facto de me interessar quebrar certas referências. Não ter receitas.
Os tais círculos abertos de que falava há pouco, sem ‘congelamentos’ ou ‘gavetas’.

Sim, é isso.

É a primeira vez que vem à Madeira?

Não, é a segunda. A última vez que estive na Madeira foi há cinco anos, no casamento de um amigo, mas só fiquei uma semana, por isso, esta é como se fosse a primeira vez [riso]. Até porque se trata de outra viagem, num contexto diferente.

Conseguiria viver numa ilha? A insularidade pode ser muito nutritiva, do ponto de vista artístico, mas também, creio eu, algo castradora, se olharmos aos seus condicionalismos.

Pois… Eu seria capaz de viver numa ilha, até porque as ilhas são lugares especiais, com condições muito particulares, mas precisaria de sair de vez em quando [riso]. Há o caso da Lourdes de Castro, que viveu na Madeira até aos vinte anos e não queria outra coisa senão sair da Madeira. É compreensível que uma pessoa que cresça numa ilha precise de ver o mundo; eu não cresci numa ilha e precisei de ver o mundo, por isso, percebo que, para quem vive na insularidade, esse sentimento seja ainda mais intenso. A Lourdes de Castro acabou por regressar, e agora praticamente não sai da ilha. O que eu acho é que ‘há mar e mar, há ir e voltar’; as viagens não são só de ida. Não são círculos fechados.

Viajemos agora até à rádio, um lugar que sabemos ser muito especial para si.Pingue Pongue’ é o nome do programa que apresenta, com Matilde Campilho, na Antena 3, há quase quatro anos. Esse tem sido outro espaço fértil para o fio que vai tecendo?

Tem, sem dúvida. Escrevemos todas as semanas o programa, o que dá uma certa disciplina. A rádio era uma coisa que eu queria fazer há muito tempo, desde que estava no Brasil. Sempre quis fazer rádio.

Porquê?

A rádio interessa-me porque mudou muito pouco ao longo dos anos, ao contrário dos jornais e da televisão. Não é fácil mudar a rádio, e isso interessa-me. Por outro lado, há a questão da palavra e da música. O programa não está diretamente ligado àquilo que eu faço, à minha atividade artística. Tem uma voz própria. E agrada-me muito a ideia de colaboração, o facto de a rádio ser uma coisa feita a várias mãos, como a música. Nas artes visuais, infelizmente, nem sempre assim, o que é uma pena, do meu ponto de vista [riso]. Talvez o maior prazer que eu tiro da rádio seja esse, o de contribuir com outros para um mesmo objetivo.

Para ser o artista plástico, o poeta e o músico precisa de ser, primeiro, cada um deles?

Não sei. E também não sei dizer que não [riso]. Quase que não posso dizer isto em voz alta, mas é tudo a mesma coisa [riso]. Às vezes, a brincar, costumo dizer à Matilde [Campilho]: são tudo canções [riso]. Vamos lá ver, claro que não é tudo igual; fazer música não é o mesmo que fazer uma pintura ou um poema, mas a verdade é que eu não sou essas coisas todas, ou seja, não sou poeta, talvez não seja pintor, talvez seja outra coisa qualquer, quem sabe um acrobata [riso]. Não estou muito preocupado em definir essa questão. Simplesmente, vou lá e faço, pronto [riso].

Está tudo ligado pelo mesmo fio.

Está, é uma teia.

Esse desprendimento revela uma abertura grande para as tantas travessias.
Mais do que uma abertura é um pouco de inconsciência, é atirar-me para o vazio. Por exemplo, quando o Philippe Petit põe o pé em cima da corda, já não há nada a fazer. Eu gosto desse primeiro passo, que, por vezes, tem de ser muito bem preparado, mas, noutras vezes, é melhor não pensar muito nele.

Sobre Tomás Cunha Ferreira: 

O trabalho de Tomás Cunha Ferreira (Lisboa, 1973) combina vários suportes, numa prática em circuito aberto e transfronteiriça - cada trabalho assume-se como protótipo que pode tomar diversas formas, funcionando como possível partitura, notação, poema visual, emblema, padrão, pintura, entre outros. Nessa medida, cada trabalho resulta numa figura híbrida condensada, cuja leitura está em constante transição entre elementos visuais e elementos rítmicos ou sonoros. 
Num texto de 1965, ‘Between Poetry And Painting’, o monge beneditino e poeta Dom Sylvester Houédard utiliza, para se referir de um modo mais amplo à palavra e à pintura, os termos logos e ícone. Percorrendo uma cronologia histórica das relações entre logos e ícone, desde os artefactos primitivos até aos anos de 1960, Dom Sylvester Houédard propõe termos como ‘quasepintura’, ‘quasepalavra’, ou mesmo ‘quaseletra’, que servem como ganchos programáticos abertos e em permanente redefinição. A proposição destes termos compósitos é programática, e as suas premissas procuram abalar a natureza e a existência das palavras e da pintura enquanto matérias estanques, propondo zonas de circulação livre e de não-separação entre texto e imagem, entre poesia e pintura, entre logos e ícone. Como irmãos separados à nascença, logos e ícone são resgatados através desta enviesada árvore genealógica elaborada por Houédard. 
Tomás Cunha Ferreira vive e trabalha em Lisboa.

 

Exposições Individuais: 
As is, Galeria Emmanuel Barbault (& performance na Emily Harvey Foundation), Nova Iorque, Jan/Fev 2019
Varal, Pneuma Lisboa, Lisboa, Portugal, Mai 2018 
Partitura, O Armário, Lisboa, Portugal, Jul 2016 
Ontemporâneo, CIAJG, Guimarães, Portugal, Fev/Jun 2016  
Pintura, Museu Nogueira da Silva, Braga, Portugal, Jul/Ago 2015
Pintura, Galeria Alecrim 50, Lisboa, Portugal, Fev/Mar 2013
Die Spur Eines Bisses Im Nirgends, Corner College/Perla Mode, Zurique, Suíça, Abr 2011

Exposições Coletivas Recentes: 
Os Olhos Escutam, Galeria Fundação Amélia de Mello, Fev/Abr 2019
Jaime ou o desenho que nos dá o mundo, Fundação Carmona e Costa, Lisboa, Nov/Jan 2018/9
Biombo, com Mike Cooter (parte do ciclo Geometria Sónica), Arquipélago Centro das Artes, Ribeira Grande, Açores, Out-Jan 2018/9
Vapor nº2, Rockaway Beach, Nova Iorque, 30 Set 2018
The Impossiblity of Form, Cuchifritos Gallery + Project Space, Essex Street Market, Nova Iorque, Set/Out 2018  
Building Stories, Garagem Sul / Centro Cultural de Belém, Lisboa, Jul/Out 2018
Vapor nº1, Praia da Cova do Vapor, Lisboa, 6 Mai 2018
O Que Pode A Arte?, Museu Júlio Pomar, Lisboa, Mai 2018 
Segunda Categoria, Ateliê Bempostinha, Lisboa, Mai 2018
Factor Cavalo, Bienal de Vila Nova de Cerveira, Jul/Set 2017
Os Índios da Meia Praia, Galeria 111, Lisboa, Mai 2017
Verbivocovisual, Poesia Concreta, Visual e Experimental Portuguesa, Galeria Zé Dos Bois / ZDB, Fev/Abr 2017

SÁBADO 23 FEVEREIRO 2019

POR UM FIO
Workshop de desenho por Tomás Cunha Ferreira

15h — 19h

LOTAÇÃO MÁXIMA: 20 participantes por sessão.
Gratuito mediante inscrição, na PORTA33,
de terça a sábado das 16h às 20h | por telefone 291 743 038 / 91 616 57 20 | por email:porta33@porta33.com

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