João Barrento
Identidade e Literatura: O Eu, o Outro, o Há

João Barrento

Identidade e Literatura: O Eu, o Outro, o Há

A literatura moderna, e alguma contemporânea, pôs em causa a mesmidade-do-enteque se manifesta no terreno particular do Ser da Literatura, implícita no próprio conceito de id(em)-entidade. Discutiremos isto com a ajuda de alguns filósofos: Heidegger (e a identidade como «co-pertença»), Ricoeur (e a diferença entre identidade e ipseidade), Levinas (e a noção do Há), José Gil (e o caso particular de Pessoa). E veremos, com três exemplos concretos, como nos casos mais radicais de oscilação identitária, de autores nos quais se agudiza a relação com a linguagem enquanto matéria visceral, para lá das suas funções meramente comunicativas ou representativas, são diversas, na sua relação com a escrita, as «saídas» encontradas para o «dilema do nome» (desconhecido da multidão daqueles que, na literatura, dizem «Eu» aproblematicamente): a. Em Fernando Pessoa, através da dissociação e dramatização do Eu, que leva a que toda a sua Obra (incluindo a ortónima) seja uma construção heterónima (ou heterógrafa); b. Em Paul Celan (ou Ossip Mandelstam), pela anulação trágica do Eu, rasurado pelo próprio movimento aniquilador da História, mas afirmando-se pela via de uma poesia absoluta, em que um Isso, a própria voz da linguagem, fala a partir das ruínas da barbárie sem nome; c. Em Maria Gabriela Llansol, por uma tripla via: discursiva (a das vozes que falam no seu texto); genológica (a das formas ou géneros, particularmente o caso singular da «autobiografia» transformada em «signografia»); e filosófica, que implica um salto do plano do Eu para o do «Há», do registo pessoal/impessoal para a escrita à distância de si e do nome, fora do social, da História e da memória pessoal, e perto do Aberto (Rilke) – no espaço do Há sem Eu, uma espécie de líquido amniótico ou de murmúrio do Ser que produz a energia que se liberta no acto de escrita e leva quem escreve para fora de si.

João Barrento: biografia (resumo)

Ensaísta e tradutor. Professor (aposentado) de Literatura Alemã e Comparada da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Publicou livros de ensaio, crítica literária e crónica, e traduziu literatura e filosofia de língua alemã do Barroco à actualidade, com destaque para grandes edições de Goethe, Musil e Walter Benjamin. Colaborou no jornal "Público" desde a fundação (1990) até 2006, e na maior parte das revistas literárias portuguesas. Foi vice-presidente do PEN Clube Português (1990-2006) e é actualmente Presidente da Direcção do Espaço Llansol, responsável pelo espólio de Maria Gabriela Llansol. Recebeu os principais prémios literários portugueses (para ensaio, crónica e tradução): Prémio Calouste Gulbenkian da Academia das Ciências (Tradução de Poesia, 1979); Grande Prémio de Tradução (1993 e 1999); Prémio de Ensaio da Associação Portuguesa de Críticos Literários (1996); Grande Prémio de Ensaio Literário da Associação Portuguesa de Escritores (1996); Prémio de Ensaio do PEN Clube (2001); Prémio de Tradução Científica e Técnica da União Latina (2005); Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores (2006), Prémio de Tradução do Ministério da Cultura da Áustria (2010); Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus (2010). Recebeu a Cruz de Mérito Alemã (1991) e a Medalha Goethe (1998).

Llivros de ensaio, crónica e teoria:
Fausto na Literatura Europeia. Lisboa, Apáginastantas, 1984 (com VV. Autores);
O Espinho de Sócrates. Modernismo e Expressionismo. Lisboa, Presença,1987;
A Poesia do Expressionismo Alemão, Lisboa, Presença, 1989;
Goethe. Vida, Obra, Época / Goethe em Portugal. Lisboa, Círculo de Leitores, 1991;
A Palavra Transversal. Literatura e Ideias no Século XX. Lisboa, Cotovia,1996;
Uma Seta no Coração do Dia. Crónicas. Lisboa, Cotovia,1998;
Nelken und Immortellen. Portugiesische Literatur der Gegenwart [Cravos e Sempre-Vivas. A literatura portuguesa contemporânea]. Berlim, edition tranvía,1999;
A Espiral Vertiginosa. Ensaios sobre a cultura contemporânea. Lisboa, Cotovia, 2000;
Umbrais. O Pequeno Livro dos Prefácios. Lisboa, Cotovia, 2000;
O Poço de Babel. Para uma poética da tradução literária. Lisboa, Relógio d'Água, 2002;
Ler o Que Não Foi Escrito. Conversa inacabada entre Walter Benjamin e Paul Celan. Lisboa, Cotovia, 2005;
A Escala do Meu Mundo. Lisboa, Assírio & Alvim, 2006;
O Arco da Palavra. Ensaios. S. Paulo, Editora Escrituras, 2006;
Na Dobra do Mundo. Escritos llansolianos. Lisboa, Mariposa Azual, 2008;
O Género Intranquilo. Anatomia do ensaio e do fragmento. Lisboa, Assírio & Alvim, 2010;
O Mundo Está Cheio de Deuses. Crise e crítica do contemporâneo. Lisboa: Assírio & Alvim (no prelo);
Geografia Imaterial. Dois ensaios sobre a poesia (com fotografias de Vina Santos). Lisboa, Mariposa Azual (no prelo).

JOÃO BARRENTO VITA

Professor for Germanistik und Komparatistik an der Universidade Nova de Lisboa. Essayist und Übersetzer deutschsprachiger Literatur. Veröffentlichungen (13 Bücher und einige hunderte von Aufsätzen und Artikeln) im Bereich der deutschen und portugiesischen Literatur, der vergleichenden Literaturwissenschaft und der Literaturtheorie. Übersetzte u. a. Goethe (Faust I+II, Lyrik, Prosa, Dramen), Expressionistische Lyrik, Georg Trakl, G. Benn, Paul Celan (3 Bde.), Johannes Bobrowski, Hugo v. Hofmannsthal, Thomas Bernhard, Ingeborg Bachmann, Christa Wolf, Heiner Müller.
Mitarbeiter der Tageszeitung "Público" und fast aller portugiesischen Literaturzeitschriften. Vorstandsmitglied des Portugiesischen PEN-Klubs. Preis für Lyrik-Übersetzung der Akademie der Wissenschaften zu Lissabon (1979);Nationaler Übersetzer-Preis (1993);Essay-Preis des Verbands Portugiesischer Literaturkritiker (1996); Großer Essay-Preis des Portugiesischen Schriftstellerverbands (1996). Bundesverdienstkreuz (1991) und Goethe-Medaille (1998).

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