João Barrento
Identidade e Literatura: O Eu, o Outro, o Há

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Paul Celan:

Elogio da distância

Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.

Aqui, coração
que andou entre os homens, arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura.

Mais negro no negro, estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.

Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.

Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.

Na fonte dos teus olhos
Um enforcado estrangula o baraço.

 

 

Conta as amêndoas

Conta as amêndoas,
conta o que era amargo e te mantinha desperto,
conta-me entre elas:

Procurei os teus olhos quando os ergueste e ninguém te olhou,
estendi aquele secreto fio
por onde o orvalho que imaginaste
escorreu para os jarros
guardados pela palavra que nenhum coração acolheu.

Só aí entraste plenamente no nome que é o teu,
te dirigiste para ti a passo firme,
vibraram livres os martelos na armação dos sinos do teu silêncio,
veio de encontro a ti o que escutaste,
envolveu-te também o braço da morte,
e fostes a três pela noite fora.

Torna-me amargo.
Conta-me entre as amêndoas.

 

 

Fala também tu

Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.

Fala –
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz-se o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh, despido de sombra, para onde?
Sobe. Tacteia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.

 

 

Stretto

[...]
Sou eu, eu,
estava entre vós, estava
aberto, era
audível, toquei-vos, a vossa respiração
obedeceu, sou
eu ainda, mas vocês
estão a dormir.
[...]

 

 

Salmo

Ninguém nos moldará de novo em terra e barro,
ninguém animará pela palavra o nosso pó.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor de ti queremos
florir.
Em direcção
a ti.

Um Nada
fomos, somos, continuaremos
a ser, florescendo:
a rosa do Nada, a
de Ninguém.

Com
o estilete claro-de-alma,
o estame ermo-de-céu,
a corola vermelha
da purpúrea palavra que cantámos
sobre, oh sobre
o espinho.

 

 

Mandorla

Na amêndoa – o que está na amêndoa?
O nada.
Está o nada na amêndoa.
Aí está e está.

No nada – quem está aí? O Rei.
Aí está o Rei, o Rei.
Aí está e está.

Madeixa de judeu, és imortal.

E os teus olhos – para onde estão voltados os teus olhos?
Os teus olhos estão voltados para a amêndoa.
Os teus olhos, para o nada estão voltados.
Para o Rei.
Assim estão e estão.

Madeixa de homem, és imortal.
Amêndoa vazia, azul real.

 

 

ESTÁS PARA ALÉM
de ti,

para além de ti
está o teu destino,

de olhos brancos, fugido a
um cântico, algo se aproxima dele,
que ajuda
a arrancar a língua,
também ao meio-dia, lá fora.

(in: Sete Rosas Mais Tarde. Antologia poética. Trad. de João Barrento e Yvette Centeno. Lisboa, Livros Cotovia, 1993, 2ª ed. 1996)

 

 

NO INACLARÁVEL
abre-se uma porta,
dela
caem em escamas as manchas da camuflagem,
repassadas de verdade.

 

 

COM O VENTO PELAS COSTAS
morro e apago-me
na grande monção —
é então que verdadeiramente vivo.

 

 

NÃO TE ESCREVAS
entre os mundos,

ergue-te contra
a variedade de sentidos,

confia no rasto das lágrimas
e aprende a viver.

 

 

A morte

A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora de estação.

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.

(in: A Morte é Uma Flor. Poemas do espólio. Trad. de J. Barrento. Lisboa, Livros Cotovia, 1998)

De: Arte Poética. 'O Meridiano' e outros textos
(Ed. e trad. de J. Barrento. Lisboa, Livros Cotovia, 1996):

O POEMA ABSOLUTO? IMPESSOALIDADE, DISSONÂNCIA, «GRAU ZERO DA EXPRESSÃO», DIALOGISMO:

A poesia alemã segue, julgo eu, caminhos diferentes dos da francesa. Trazendo na memória o que há de mais sombrio, tendo à sua volta o que há de mais problemático, por mais que actualize a tradição em que se insere, ela já não consegue falar a linguagem que alguns ouvidos benevolentes parecem ainda esperar dela. A sua linguagem tornou-se mais sóbria, mais factual, desconfia do «belo», tenta ser verdadeira. É portanto [...] uma linguagem «mais cinzenta», uma linguagem que, entre outras coisas, também quer ver a sua «musicalidade» situada num lugar onde ela já não tenha nada em comum com aquela «harmonia» que, mais ou menos despreocupadamente, se ouviu com o que há de mais terrível, ou ecoou a seu lado.
Apesar de não prescindir de uma plurivalência da expressão, o objectivo dessa linguagem é o do rigor. Não transfigura, não «poetiza»: nomeia e postula, procura delimitar o campo do que é dado e do que é possível. É claro que o motor nunca é aqui a própria linguagem, mas sempre e somente um eu que fala a partir do ângulo particular da sua existência, para o qual é importante definir um perfil e uma orientação...

(«Resposta a um inquérito da Librairie Flinker, Paris», 1958)

O poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrfafa, lançada ao mar na convicção – decerto nem sempre muito esperançada – de um dia ir dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho – têm um rumo.
Para onde? Em direcção a algo de aberto, de ocupável, talvez a um tu apostrofável, a uma realidade apostrofável. Penso que, para o poema, o que conta são essas realidades. [...]

(«Alocução na entrega do Prémio Literário da Cidade Livre e Hanseática de Bremen», 1958)

[...] o poema fala! Mantém viva a memória das suas datas, mas – fala. É claro que fala sempre e apenas em causa própria, a mais própria que se possa imaginar.
Mas penso [...] que desde sempre uma das esperanças do poema é precisamente a de, deste modo, falar também em causa alheia – não, esta palavra já a não posso usar agora –, é a de, deste modo, falar em nome de um Outro, quem sabe se em nome de um radicalmente Outro.
[...]
É certo que o poema – o poema hoje – mostra (e isso, segundo creio, só indirectamente tem a ver com as dificuldades – que não devemos subestimar – da escolha das palavras, com o mais acentuado declive da sintaxe ou o sentido mais desperto da elipse), o poema mostra, e isso é indesmentível, uma forte tendência para o emudecimento.
Ele afirma-se (permitam-me, depois de tantas formulações radicais, mais esta), o poema afirma-se à margem de si próprio; para poder subsistir, evoca-se e recupera-se incessantemente, num movimento que vai do seu Já-não ao seu Ainda-e-sempre.
Este Ainda-e-sempre não pode ser outra coisa senão uma fala. Não linguagem sem mais, portanto, nem provavelmente tambem «co-respondência» (Ent-sprechung) no plano da linguagem.
Ele é antes linguagem actualizada, liberta sob o signo de um processo de individuação radical, é certo, mas que ao mesmo tempo permanece consciente dos limites que lhe são traçados pela linguagem, das possibilidades que se lhe abrem na linguagem.
Esse Ainda-e-sempre do poema só pode ser encontrado na poesia de quem não se esquece de que fala sob o ângulo de incidência da sua existência, da sua condição criatural.
Então o poema seria – de forma ainda mais clara do que até agora – linguagem, tornada figura, de um ente singular, e, na sua essência mais funda, presença e evidência.
O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. Quem o escreve torna-se parte integrante dele.
Mas não se encontrará o poema, precisamente por isso, e portanto já neste momento, na situação do encontro – no mistério do encontro?
O poema quer ir ao encontro de um Outro, precisa desse Outro, de um interlocutor. Procura-o e oferece-se-lhe.
Cada coisa, cada indivíduo é, para o poema que se dirige para o Outro, figura desse Outro.
A atenção que o poema procura dedicar a tudo aquilo com que se encontra, o seu sentido apuradíssimo do pormenor, do perfil, da estrutura, da cor, mas também das «comoções» e das «alusões» – tudo isso, ao que penso, não é nenhuma conquista do olho que diariamente concorre com aparelhagens cada vez mais perfeitas (ou com elas corre), é antes uma forma de concentração que tem presentes todos os nossos dados.
«A atenção» – permitam-me que cite aqui, seguindo o ensaio de Walter Benjamin sobre Kafka, uma frase de Malebranche –, «a atenção é a oração natural da alma».
O poema torna-se – e em que condições! – o poema de um sujeito que insiste em ser um sujeito de percepção, atento a todos os fenómenos, e interrogando e apostrofando esses fenómenos: e torna-se diálogo, muitas vezes um diálogo desesperado.
Só no espaço desse diálogo se constitui o que é apostrofado, e se concentra à volta do Eu que a ele se dirige e o nomeia. Mas essa entidade apostrofada, como que transformada em Tu pela nomeação, introduz também nessa presença o seu Ser-outro. Até no aqui e agora do poema – e o poema dispõe sempre apenas deste único e pontual presente –, até nesta imediaticidade e proximidade ele deixa falar aquilo que é mais próprio dele, desse Outro: o seu tempo.
Quando assim falamos com as coisas, confrontamo-nos sempre com a questão de saber de onde vêm e para onde vão elas: uma questão «em aberto», «que não leva a conclusão nenhuma», que aponta para um espaço aberto e vazio e livre – estamos muito longe, «Iá fora». O poema, creio, procura também este lugar.
O poema?
O poema com as suas imagens e os seus tropos? Minhas Senhoras e meus Senhores, de que falo eu realmente quando, a partir desta direcção, nesta direcção, com estas palavras, falo do poema? Do poema? Não, daquele poema. Mas eu falo afinal do poema que não existe!
O poema absoluto – não, é mais que certo que não existe, não pode existir, tal coisa!
Mas existe, isso sim, com cada verdadeiro poema, com o mais modesto dos poemas, aquela irrefutável pergunta, aquela inaudita exigência.
E as imagens, que seriam então?
Aquilo que foi apercebido, que tem de ser apercebido, uma única vez, de todas as vezes, como coisa única e só agora e só aqui. E assim o poema seria o lugar onde todos os tropos e metáforas querem ser levados ad absurdum.

(«O meridiano», 1960; pp. 55-59)

 

 

Maria Gabriela Llansol:

É-me impossível dizer eu. Nós, talvez. Mas dizer todos, «com esta que escreve incluída», é melhor. A, aquela, esta, a.

(Um Arco Singular. Livro de Horas II. Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 169)

Herbais, 13 de Junho de 1982
O dia escureceu, e principiou a chover. É Herbais, na Bélgica. Entro num dia de semana que aprecio, sem interrupções da parte de fora, sem o ruído das máquinas agrícolas na Praça, com uma cena informe latente desenhada em todo o pensamento, acção, ou ante-escrita. Noto que eu não espero para escrever, nem deixo de escrever para passar pela experiência que produz a escrita; tudo é simultâneo e tem as mesmas raízes, escrever é o duplo de viver; poderia dar, como explicação, que é da mesma natureza que abrir a porta da rua, dar de comer aos animais, ou encontrar alguém que tem o lugar de sopro no meu destino. (p. 73)

a verdade como matéria
a verdade não é subjectiva, nem objectiva mas o contorno final e acabado da vida de cada um; a resposta dada, com recta intenção, ao justo apelo. Perguntar «quem sou» é uma pergunta de escravo; perguntar «quem me chama» é uma pergunta de homem livre. (p. 130)

(Um Falcão no Punho. 2ª ed. Lisboa, Relógio d'Água, 1998)

«Quais são as quatro confidências de que falou?» […]
A primeira confidência
é que nada somos _____ («Não se irrite»). O eu como nome é nada. Há um lugar de escravidão.
A segunda confidência
é que os nosso actos, mesmo a transumância ou a transplantação do azul da jarra, são menores do que nós. Há um torvelinho de intensidades a chamar-nos: são os anjos de Rilke, ou as legiões de querubins evanescentes, de Walter Benjamim.
A terceira confidência
é que não há contemporâneos, mas elos de ausências presentes; há um anel de fuga. Na prática, é uma cena infinita — o lugar onde somos figuras.
A quarta confidência
é sobre o desejo e a repulsa da identidade. Há um lugar edénico. («Não, não diga nada»). De facto, deram-nos um nome, o nome por que nos chamam, mas não é um consistente — é um verbo.
O nosso verbo, por exemplo, é escrever. (pp. 47-48)
Algures, escrevi que sempre gostei de escrever num lugar onde se arrecadam objectos e mercadorias porque a escrita é um armazém de sinais__________.
ou a sua cena; estou a ver, entre o ver e o estar à espera de ver, o armazém desses sinais, num grande ou num pequeno espaço — e o meu companheiro filosófico entra e diz:

— Este é o armazém dos sinais de Rilke; este é o armazém dos sinais de Hölderlin; este é o armazém da sua Dickinson; este é o armazém dos sinais de Fernando Pessoa. — E, no fim, murmura sem qualquer surpresa minha: — Este é o armazém dos meus sinais. (p. 140)

A vida da carta faz um relato minucioso dos acontecimentos presenciáveis, tentando a biografia. Eu esquivo-me a essa maneira de pensar, e tento outra via_________
des-dato e reúno numa estreita proximidade os nós do visível para que a sua força se não disperse.
Se a via da vida me esquecesse __________
e eu, para finalizar, encontrasse outra perspectiva, esta morada não seria, como todas as vidas, um terreno vago no mapa, mas um lugar na geografia do há dos mundos,
essa carta das cores onde se pode ver o contorno de um país que uma dada luz realça. (p. 88)
— É realmente extraordinário termos nascido numa dada signografia do há em que a nossa biografia se cruza (e tantas vezes se confunde) com a geografia dos mundos.
(p. 141)

A CONFIDÊNCIA DA RAPARIGA QUE SAIU DO TEXTO:
____________ durante estes meses procurei uma geografia — não uma biografia, e muito menos uma ficção —, sobre as relações deslumbradas e doridas entre escritores. Parti em busca da natureza da relação escritural de obras — a do Vergílio e a minha — que não sendo, de facto, construídas nos mesmos pressupostos,
acabam por chocar,
cada uma com a sua velocidade própria,
com o mundo, a sua significação e a sua evanescência. A certa altura, escrevi mesmo que essa geografia era, antes e sobretudo, uma signografia-sobre-o mundo.
Para a desenhar saí, por vezes, do texto________ a escritora aceitando ser a rapariga que se veste de azul: ser alguém que olha o texto depois de. De fora. Não a partir da vida ou da existência, mas de outro ponto de vista.
O texto que ando a escrever vai para trinta e cinco anos começou por ser pequenas narrativas de estranheza e identificou- se, em seguida, com a sequência das cenas fulgor do entresser. Quis agora olhá-lo do ponto de vista do luar libidinal.
O mundo existe, e o Vergílio morreu. Não procurei criar uma realidade em que o mundo deixaria de ser in-conforme, libertando-nos da nossa rebeldia que é distância e responsabilidade, ou reconciliando-nos num abraço final como se tudo tivesse sido um
equívoco,
nem criar a suposição de que ele morreu
mas como se, de facto, não tivesse morrido.
Não. O que procuro é ver onde a continuidade do há se fractura, onde muda de registo e de sinais, e se há possibilidade de o dizer sem esperança, nem impostura. «Sem esperança», quer dizer sem ilusão garantida. Quando nos apercebemos de que o há é há, não somos só parte dele. Acrescentamos-lhe um ver criador_____ criamos, modificando-lhe a paisagem. Nenhum traço se perde, mesmo que tenda a apagar-se. O que hoje me cabe é ver sinais, e projectá-los com toda a força de impacto de que dispuser. Sobrepondo-os e entendendo as consonâncias que desenvolvem entre si. Deixar-me orientar pelo sentido melódico que lhes ouço e aceitar a significação ou senso que resulta, se resultar. Recomeçar o ver todos os dias, tentar que a energia que me gasta me dê mais energia, procurá-la nos filamentos mais ténues do real que tenho à mão, não recear servir-me do estranho que o meu corpo sente e pensa. (pp. 167-168)

(Inquérito às Quatro Confidências. Diário III. Lisboa, Relógio d'Água, 1996)

... há dias que decidi separar-me de todos os meus companheiros para pintar, e primeiro tive que cobrir a parede de branco para recomeçar, porque não nos dão mais paredes este mês; no entanto, toda a tinta está à minha disposição, e na impossibilidade de pintar sem espaço, peguei na vela acesa e com ela iluminei os baldes sucessivos e fiz jogos; nunca pensei em pintar-me; uma simples pincelada em mim mesma, e ficaria coberta...

(Anotação na última página da edição francesa do Zaratustra, de Nietzsche. Exemplar da biblioteca de Maria Gabriela Llansol, Lovaina, Junho de 1968)

O diário, «a minha vida» e a sua objectividade:
«não é a primeira vez que a minha própria vida me aparece do exterior

Decidi hoje dividir este diário, não por anos e por dias, mas por versículos; um diário pode ser mais objectivo do que uma vida pessoal – adjectivo que me faz pensar em Pessoa...

(Espólio de M. G. Llansol, caderno 1.11, p. 221 [1981]; também Um Falcão no Punho, p. 62)

Partícula 13 — A Raiz está escondida

Era Hölderlin a responder-me, sem que eu lhe respondesse.

«para sobreviver há uma sobreposição de notas pessoais _____ de pessoas _____ que tenho de ouvir _____ e essas pessoas devem girar constantemente nas suas múltiplas faces
_______ de que eu recebo algumas, e afasto outras. Formam assim um ser inexistente
mas não imaginário,
que as contém a todas
.
Que as contém, não,
que as destrói,

extraindo-se a parte de que o sol necessita
para ver o humano.

Esta a técnica mais simples de construir o texto, e que lhe cria a repugnância do autobiográfico

(Os Cantores de Leitura. Lisboa, Assírio & Alvim, 2007, p. 32)

... cada vez eu, eu maior do que eu, espaço, tempo e terra;
constituo uma travessia, um acto perpendicular de alguém que marcha em nós...
(p. 79)

O tapete encarnado é para o lápis o pé do lápis.O pé do lápis não é, no entanto, quem eu sou, nem o que se diz, pronunciando-o. [...] O quarto ameaçado torna-se a ouvir, e eu vejo que o relâmpago de «escrevo, mas não sou escravo», se dirige, sozinho, para a secretária do escritório, e derruba todos os inúteis auxiliares de escrita... (pp. 115-116)

(Um Beijo Dado Mais Tarde. Lisboa, Edições Rolim, 1990)

... por detrás das histórias, por detrás da magia do «era uma vez...», do exótico e do fantástico, o que nós procuramos são os estados do fora-do-eu, tal como a língua o indica, ao aproximar existência e êxtase, ao atribuir ao ser uma forma vibrátil de estar.
Na realidade, todos nós domos feitos, criados, longe, à distância de nós mesmos.
E se, há muito, se fala da morte do romance e, apesar disso, se continua a escrever romances,
é porque
dessa escrita
a vibração definitivamente se ausentou, e porque outras formas de arte se apropriaram, com êxito, das suas técnicas narrativas.

(Lisboaleipzig 1. O encontro inesperado do diverso. Lisboa, Edições Rolim, 1994, p. 118-119)

A narrativa que a estas páginas vai estando subjacente não precisará, finalmente, de ficção. Será um livro póstumo, ou um livro antigo, e chamar-se-á, referindo-se a uma mulher, Biografia. Não por eu ser escritora, ou uma mulher que dá testemunho; mas por ter nascido ser vivo…

(Finita. Diário 2, 2ª ed. Lisboa, Assírio & Alvim, 2005, pp. 220-221)

Legente, que diz o texto? Que ler é ser chamado a um combate, a um drama. Um poema que procura um corpo sem-eu, e um eu que quer ser reconhecido como seu escrevente. Pelo menos. Esse o ente criado em torno do qual silenciosamente gira toda a criação.
O luar libidinal é o nome que dou, hoje, a esse compromisso. Uma jubilosa difusão do caminhante pelas ruas, a escrever cópias da noite.
Fugir ao destino do vate. Fugir à mediocridade da autobiografia. (p. 18) Falo de fulgor porque a falta de claridade é essencial. A escuridão é propícia ao medo, ao pensamento e ao projectar. O descoberto e o escondido confundem-se, trocam de rosto. Entram em simetria. Quando o meu há é todo o há que existe. (p. 34)

(Onde Vais, Drama-poesia? Lisboa, Relógio d'Água, 2000)

IV
As oliveiras surgem subitamente numa colina, e aumentam o texto. Confirmam a paisagem constituída por colinas livres. O meu acorde com a substância é vê-las, o das colinas é serem uma bandeja de oliveiras colocadas sobre um pano/chão castanho, desenhado a verde — e o do infinito é perder-se neste lugar.
Planície agora a quatro mãos, uma casa insonora abandonada, um livro projectado na imagem da casa. O que ouço é devastação, abandono. Penso no que escrevo por estar olhando os atributos — no comboio que nos transporta —, como puros frutos de um que nos pode deixar aflitos. Algumas oliveiras num planalto, o céu e a vegetação rala formam linguagem no meu olhar. E escrevo como Há.

V
Eu é o outro que eu vejo em mim. Um lugar não desmultiplicado, uno, amplo, criando sempre maior e mais amplitude, vivendo incansavelmente por dentro da natureza até a trazer à superfície onde se apoia o inteligente deslumbramento que olha o homem novo sentado ao piano. […]
É preciso voltar a dizê-lo. Vestido, não tinha qualquer qualidade musical. Dentro da música, está nu na sua qualidade de interpretante desse há que nos pode deixar jubilosos.

(O Jogo da Liberdade da Alma(. Lisboa, Relógio d'Água, 2003, pp. 15, 17)

Uma série ininterrupta de aguaceiros de neve permanece lá fora e uma espécie de pânico atingiu a minha vibração habitual, que rompe. Se os aguaceiros estivessem a traçar a minha autobiografia, eu veria como ela forma um tecido de linhas solidárias. De facto, como digo ao Grande Maior, eu sempre desejei que houvesse um ponto de coincidência de todo o espaço, de todos os factos, de todas as espécies, de todos os reinos. Apenas do Há, entenda-se.

(Parasceve. Puzzles e ironias. Lisboa, Relógio d'Água, 2001, p. 42)

algo maior do que eu, ou seja, diferente de mim, que escreve e mantém a Obra, é uma consciência muito mais vasta do que aquela que poderia ser a fonte do meu corpo; é uma serenidade muito maior do que aquela que tenho dia a dia.

(Espólio de M. G. Llansol, caderno 1.12, p. 386 [1982])

Tenho vontade de trabalhar numa grande narrativa que seja ininterrupta e incorrupta. A face dessa profusão de seres
deixados a outros, que substituirá a minha face e memória.

(Espólio de M. G. Llansol, caderno 1.13, p. 84 ÷1983])

Poderíamos construir outro corpo a partir
Do pensamento com imagens e emoções de
Menor engano. Inscrever na química que
Nos vai lembrando memórias de um corpo
Onde não estejamos biologicamente tanto.
Lembrar à fantasia que tudo o que não sou
É eu. Salpicá-lo de respiração conjunta com
As árvores. Pedir ao mito que os livros não
Se enredem nas silvas por destino. Saber que
Luar é este que vem de fora, ir procurando.
Desenhar, porque não?, o seu centro num
Ponto que pronto se desloca. Poderíamos.

(O Começo de Um Livro É Precioso. Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, estância 110)

Joao Barrento

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