José Tolentino Mendonça
Que tempo trará alma ao mundo?
Uma reflexão sobre a temporalidade
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Santo Agostinho

CONFISSÕES

LIVRO XI

[As três espécies de tempo: passado, presente, futuro]

XIV. 17. Não houve, pois, tempo algum em que não tivesses feito alguma coisa, porque tinhas feito o próprio tempo. E nenhuns tempos te são co-eternos, porque tu permaneces o mesmo; ora, se os tempos permanecessem os mesmos, não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? Quem o poderá explicar facilmente e com brevidade? Quem poderá apreendê-lo, mesmo com o pensamento, para proferir uma palavra acerca dele? Que realidade mais familiar e conhecida do que o tempo evocamos na nossa conversação? E quando falamos dele, sem dúvida compreendemos, e também compreendemos, quando ouvimos alguém falar dele. O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei: no entanto, digo com segurança que sei que, se nada passasse, não existiria o tempo passado, e, se nada adviesse, não existiria o tempo futuro, e, se nada existisse, não existiria o tempo presente. De que modo existem, pois, esses dois tempos, o passado e o futuro, uma vez que, por um lado, o passado já não existe, por outro, o futuro ainda não existe? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse a passado, já não seria tempo, mas eternidade. Logo, se o presente, para ser tempo, só passa a existir porque se torna passado, como é que dizemos que existe também este, cuja causa de existir é aquela porque não existirá, ou seja, não podemos dizer com verdade que o tempo existe senão porque ele tende para o não existir?

[A medição do tempo]

XV. 18. E, no entanto, dizemos 'tempo longo' e 'tempo breve', mas não o dizemos senão em relação ao passado e ao futuro. Chamamos 'longo' ao tempo passado, quando, por exemplo, ele é cem anos anterior ao presente. De igual modo, chamamos 'longo' ao tempo futuro, quando ele é cem anos posterior ao presente. Por outro lado, chamamos 'breve' ao tempo passado, se, por exemplo, dizemos 'há dez dias', e 'breve' ao tempo futuro, se dizemos 'daqui a dez dias'. Mas como é que é longo ou breve aquilo que não existe? Com efeito, o passado já não existe e o futuro ainda não existe. Não digamos, pois: é longo, mas, em relação ao passado, digamos: foi longo, e em relação ao futuro: será longo. Meu Senhor, minha luz, acaso também aqui a tua verdade não escarnecerá do homem? Quanto ao facto de o tempo passado ter sido longo, foi longo quando já era passado ou quando ainda era presente? Com efeito, ele só podia ser longo, quando havia alguma coisa que pudesse ser longa: na verdade, o passado já não existia; e por isso não podia ser longo o que não existia absolutamente. Não digamos, pois: O tempo passado foi longo – pois não encontraremos porque foi longo, uma vez que não existe a partir do momento em que se tornou passado – mas digamos: Foi longo aquele tempo presente, porque era longo enquanto era presente. Ainda não tinha passado de maneira a não existir e, por isso, havia alguma coisa que podia ser longa; mas, depois de ter passado, nesse mesmo momento deixou também de ser longo aquilo que deixou de existir.

19. Vejamos, pois, ó alma humana, se o tempo presente pode ser longo: pois te foi dada a capacidade de perceber e medir a sua duração. Que me responderás? Acaso cem anos presentes são um tempo longo? Considera, primeiro, se cem anos podem estar presentes. Se, com efeito, está a decorrer o primeiro desses anos, esse mesmo está presente e os outros noventa e nove estão para vir e, por isso, não existem: mas, se decorre o segundo ano, um já passou, outro está presente, e os restantes estão para vir. E assim, qualquer que seja o ano intermédio destes cem anos que tomemos como presente, os que estão antes dele terão passado, os depois dele estarão para vir. Por conseguinte, cem anos não poderão estar presentes. Considera, pelo menos, se o ano que decorre é o único que está presente. Com efeito, se é o primeiro mês que decorre, os outros estão para vir; se é o segundo, por um lado, o primeiro já passou, por outro, os restantes ainda não existem. Por conseguinte, nem o ano que decorre está todo ele presente e, se não está todo presente, não está o ano presente. Doze meses são um ano, dos quais qualquer mês que decorra, esse mesmo está presente, os restantes ou passaram ou estão para vir. Admitamos que nem sequer o mês que decorre está presente, mas somente um dia: se for o primeiro, os outros hão-de vir; se for o último, os outros terão passado; se for qualquer dia intermédio, esse está entre os que passaram e os que hão-de vir.

20. Eis que o tempo presente, o único que considerávamos susceptível de ser chamado longo, foi reduzido ao espaço de apenas um dia. Mas examinemo-lo também a ele, porque nem sequer um dia está todo ele presente. Este compõe-se de vinte e quatro horas, umas nocturnas e outras diurnas, a primeira das quais tem as outras como futuras e a última tem as outras como passadas, ao passo que qualquer das intermédias tem como passadas as que estão antes dela, e como futuras as que estão depois dela. E até essa mesma única hora decorre em instantes fugazes: tudo o que dela escapou é passado; tudo o que dela resta é futuro. Se se puder conceber algum tempo que não seja susceptível de ser subdividido em nenhuma fracção de tempo, ainda que a mais minúscula, esse é o único a que se pode chamar presente; mas este voa tão rapidamente do futuro para o passado que não se estende por nenhuma duração. Na verdade, se se estende, divide-se em passado e futuro: mas o presente não tem extensão alguma. Quando é, então, o tempo a que podemos chamar longo? Será o futuro? Na verdade não dizemos: é longo, porque ainda não existe o que possa ser longo, mas dizemos: será longo. Então, quando será? Se, com efeito, também nesse instante ainda há-de vir, não será longo, porque ainda não existirá aquilo que possa ser longo: se, porém, for longo no instante em que, de futuro, que ainda não é, começar já a ser e a tornar-se presente, a ponto de poder existir aquilo que pode ser longo, já, como antes ficou dito, o tempo presente proclama que não pode ser longo.

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