Nuno Henrique

O trabalho que tenho desenvolvido, entre o Desenho e a Escultura, tem tido como ponto de partida narrativas que têm como objecto espécies botânicas.

Em parte o conteúdo narrativo do meu trabalho deve-se à experiência efectiva com a floresta indígena dos arquipélagos da Madeira, de onde sou natural, e do Porto Santo. Floresta que só nos locais mais inacessíveis sobreviveu ao povoamento das ilhas pelos portugueses. Ocupando hoje apenas 15% da totalidade do território, esta floresta tornou-se para mim numa experiência da sua ausência.

Assim a minha obra não tem sido apenas acerca dessas espécies mas sobre o que permanece e o que desaparece, explorando o potencial interdisciplinar ilimitado da botânica, que estabelece ligações com todos os outros aspectos da vida.

Em parte este trabalho tem-se materializado na criação de "monumentos", explorando as potencialidades plásticas do calco, uma técnica de decalque utilizada em arqueologia. Difundida principalmente no séc. XIX e aperfeiçoada pelo pintor orientalista Lottin de Laval nas suas expedições arqueológicas, esta técnica permitiu, através da modelagem em gesso a partir das simples folhas de papel, realizar uma reconstituição dos monumentos — evitando, assim, as práticas arqueológicas até aí vigentes que passavam pela recolha de fragmentos resultantes da destruição dos achados.

Um calco é uma cópia dos relevos de uma inscrição lapidar obtida por pressão sobre um papel humedecido colocado sobre o objecto a reconstituir.

A minha prática artística relaciona-se, assim, com a tradição clássica da escultura — a do monumento funerário — apesar de não recorrer aos materiais tradicionais. Através dos calcos transporto para o espaço expositivo os 'achados' das minhas expedições, encenadas no espaço de atelier e trabalhados de modo a explorar uma certa ideia de monumentalidade.

O meu trabalho, contudo, não se limita aos calcos. Passa também pela produção de desenhos, de fotografias, de 'livros de artista' assim como de pequenos filmes que invocam os lugares onde acontecem as minhas expedições e que se tornam parte integrante da criação dos monumentos — registos documentais que, em conjunto com os calcos e no confronto com o espaço expositivo, resultam em instalações.

Um material tornou-se fundamental no espaço de atelier – o papel. Através de competências adquiridas com os calcos e de uma prática de investigação plástica centrada no atelier, alguma da minha obra mais recente, tem encontrado outras estratégias.

Nuno Henrique

 

 

Biografia (resumo)

Nuno Henrique nasceu no Funchal em 1982. Em 2005, licenciou-se em Escultura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. Foi assistente de produção da Porta 33, em 2008. E frequentou nos anos lectivos de 2008/9 e 2009/10 o Projecto Individual na Ar.Co através de uma bolsa da Porta 33.

Das exposições que participou destacam-se, "Linha de Partida", comissariada por Alexandre Melo, no Centro de Artes Casa das Mudas, Calheta, 2009; "Quarenta Calcos" Galeria Módulo, Lisboa, 2010; "O velho Dragoeiro que existia na Ponta do Garajau caiu ao mar durante uma chuvada intensa de sudeste, ocorrida no equinócio de Outono de 1982.", na Porta 33, Funchal, 2010 ; "As Saudades da Terra", Galeria Módulo, Lisboa, 2012.

Foram-lhe atribuidas bolsas: da Porta 33 em 2008 e 2009; do Centro Nacional de Cultura, Lisboa, 2011; Fundacion Botin para frequentar o "Lothar Baumgarten Workshop", Santander, 2012; Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Luso-Americana para uma residência no Location One, Nova Iorque, 2012.

Recebeu ainda o 2º Prémio no "IV Certamen de Dibujo Contemporáneo Pilar y Andrés Centenera Jaraba", Fundación Centenera, Madrid, 2013.

Vive e trabalha entre Lisboa e a Ilha da Madeira.

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