MANUEL RODRIGUES
A(s) cultura(s) da arte
O Protágoras de Platão — uma vontade involuntária

No Protágoras, o interlocutor de Sócrates é alguém que se reclama fortemente do legado dos grandes poetas; é também uma figura pública que terá tido alguma influência política, nomeadamente junto de Péricles, se bem que o seu real peso efectivo nos escape. Poesia e política apresentam-se, assim, reunidas num único adversário; não é de estranhar, pois, que o tema do diálogo seja a virtude política, assim como o não é que surja, como seu nódulo central, uma aparentemente inócua discussão sobre um poema.

Tentaremos aqui abordar o papel que tem, no contexto no Protágoras, o debate em torno do poema de Simónides. A sua função de intermezzo descompressor é-nos sugerida por se seguir a alguma crispação que então irrompia; no entanto, a sua posição, a meio do diálogo, e o seu carácter de epicentro da mudança cobre um raio que, como se verá, se estende a praticamente todo o texto. Para o fim guardo algumas notas pessoais de reflexão2.

1. Situação do problema

Como se pode ler pela própria letra de Platão, numa espécie de sumário que nos deixa no final do livro, a posição relativa dos intervenientes altera-se e parece inverter-se durante o percurso do debate. Sócrates começa por afirmar que a virtude não se ensina – aparentemente em consonância com o seu desejo de negar aos sofistas qualquer pretensão quanto ao seu suposto ensino – e acaba a admitir que afinal deve poder ensinar-se, dado que admite tratar-se de um conhecimento (o que, tendo em conta as posições relativas, podia ter sido facilmente defendido logo de início); Protágoras, por sua vez, que afirmava que a virtude se podia ensinar, mesmo não sendo um conhecimento, acaba a admitir que se trata, afinal, de um conhecimento. Aparentemente a aporia é deixada para futura reflexão.

 

1O texto de referência situa-se entre 339 a e 347 b.
2Para um poeta, praticamente leigo em Filosofia, qualquer comentário a um texto filosófico com a qualidade literária deste, representa uma dupla tentação difícil de reprimir; a da defesa da poesia (contra os supostos e os expostos ataques platónicos) e a do aplauso pela ‘poesia’ que existe no Protágoras, para além da língua, tanto na construção dramática do enredo como no desenho conceptual criado – o desenho do devir. Nas notas finais tentarei que essa tentação não ultrapasse o devido reconhecimento do valor ‘filosófico’ do questionamento que este texto me suscita.

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