Comércio do Funchal
Encontro com a imprensa
Porta33 > 19.11.2015

Falar sobre a pertinência do Comércio do Funchal no jornalismo da sua época, no período aqui considerado (1967/1975), tornou-se para nós mais evidente depois da realização da exposição de Pitum Keil do Amaral (patente na Porta33, até 28 de Novembro), que integra alguns desenhos então publicados neste jornal. Embora de estatuto periférico, o Comércio do Funchal gozou, entre 1967 e 1975, de uma forte adesão nacional, não só pela qualidade dos seus colaboradores como pela diversidade das opiniões emitidas, provenientes de diversas áreas de conhecimento e cultura. Este carácter periférico e insular mas contudo central no panorama nacional, foi determinante na escolha da Porta33 para a promoção deste evento.

Só o papel era cor-de-rosa

Infelizmente, o meu estado de saúde não permite estar junto de amigos a celebrar a ventura de um memorial a propósito do Comércio do Funchal, o célebre jornal cor-de-rosa, em boa hora levado a efeito pela PORTA 33. Apetece-me, contudo, articular algumas palavras sob este título: só o papel era cor-de-rosa. Embora o grande mentor e alma deste projecto, Vicente Jorge Silva, esclareça nas conversas com Isabel Lucas, publicadas em livro, (Edição, Lisboa, Círculo-Leitores, 2013) que a opção por esta cor era apenas para contrariar, porventura, a carga comercial que o título original Comércio do Funchal do Carlos Veiga Pestana poderia transmitir, e não obstante a ideia da cor também vir de outro jornal de finanças, o Finantial Times, o contexto político nacional em nada inspirava tempos cor-de-rosa.
Não quer dizer que não houvesse no âmbito de certas pessoas, ligadas a um ambiente mais culto e de formação política, um desejo secreto de fazer valer um projecto deste tipo. Mas não eram muitas e as condições financeiras e económicas para lançar um jornal contra a corrente não eram nada favoráveis. Valia e valeu um grupo de amigos que Vicente conseguiu reunir à sua volta, amigos esses de duas gerações, uma muito jovem ainda e outra de uma velha guarda de “progressistas”. Na primeira, lembro-me de José Manuel Barroso, Artur Andrade, Vítor Rosado, Tolentino de Nóbrega, Ricardo França Jardim, Duarte Sales Caldeira, Luís Angélica, João José Teixeira, José Manuel Coelho, Liberato Fernandes, José Maria Amador, entre outros. Na segunda, recordo Aníbal Trindade, António Aragão, António Loja, António Sales Caldeira, Paulo Sá Brás…
Mas também foi importante, na minha perspectiva, uma nesga de ânsia de arejamento existente nalguns homens comprometidos por cargo com o Estado Novo, mas abertos a uma certa mudança no afrontar os problemas. E essa nesga foi inteligentemente explorada pelo novo CF. Refiro-me ao presidente da Câmara do Funchal, ao tempo, o Dr. Fernando Couto e o próprio coordenador da União Nacional, o Dr. Agostinho Cardoso, e ao Eng. Rui Vieira, três homens inteligentes e lá no fundo ciosos de uma nova concepção de moderada mudança dos tempos. E, por outro lado, o CF soube aproveitar, desde o início, um tema bastante sensível às forças políticas e administrativas madeirenses: o turismo. O apoio que o CF deu ao programa do concebido Plano de Urbanização do Funchal e ao congresso de Turismo constituíram uma agenda politicamente não agressiva e igualmente serviu para numa inteligente estratégia inculcar a visão de quanto o novo CF poderia ser muito útil para os interesses regionais de afirmação identitária e autónoma.
Mas de resto, em especial quanto à sua sustentabilidade financeira, a um trabalho de jornalismo baseado no voluntariado gratuito, nas lutas do gato e do rato com a censura, à falta de apoio local, pois o maior número de assinantes vinha de fora da região da Madeira, tudo foi um trajecto que não tinha a cor do papel. Tinha a paga do brio do empenho que o projecto CF arrostou: combater o regime, lutar pela vitória de outra política que garantisse a liberdade e o desenvolvimento de um país e principalmente de uma região culturalmente atrofiada e socialmente atrasada, nada menos que a mais pobre do país.
Sinceramente, eu não participei muito directamente no cor-de-rosa. Em 1966 saíra do Jornal da Madeira. Numa primeira atitude de resguardo das implicações políticas, o bispo D. João Saraiva “refugiou-me” na transformação do seminário menor em Colégio Diocesano, marcado por algumas medidas que, provavelmente, precipitaram o meu envio para Roma: a contratação de professores e professoras leigos no ensino e a sujeição dos alunos aos exames públicos no Liceu Nacional do Funchal. Entre 1969 e 1973, porventura, os anos mais marcantes do Comércio do Funchal, estive em Roma. Aí, colaborei mais no Portugal Socialista, um boletim do PS a cargo do arquitecto Gil Martins, um madeirense refugiado em Itália e que o dactilografava, por ironia, na Igreja de Santo António dos Portugueses. Aliás colaborei no CF uma vez ou outra sob pseudónimo que nem me lembro. Lembro-me, porém, que na noite do 25 de Abril estive numa reunião no CF. Havia uma grande polémica pela acusada remoção das listas de assinantes para Lisboa pelo Milton Sarmento. Quando regressei a casa, já tarde, recebia de Lisboa uma chamada do meu amigo José Maria Amador a alertar-me que a revolução estava na rua. Nessa hora, ainda José Maria me dizia, ”não se sabe se é o Kaúlza, se são os revolucionários”.
E creio que foi esse período entre 1969 e 1974 o tempo mais influente do jornal cor-de-rosa no espaço político português. Provavelmente, ainda não se enalteceu toda a importância que o “cor-de-rosa” teve no contexto madeirense, nacional e até internacional. Conforme já escrevi em Madeira na História –Escritos sobre a Pré-Autonomia, (Edição da Âncora, 2008, 30), «os promotores deste novo Comércio do Funchal inteligentemente conseguiram convencer o proprietário do título, o José Carlos Veiga Pestana, a dar vida a um jornal à beira da extinção com a animação de um projecto cultural e político. Revolucionário para o tempo, habilmente concebido e realizado para poder escapar ao poder do controlo apertado da censura, par cá longe na Ilha sempre desprezada por eles, incomodar Salazar e Caetano. O CF reunia um grupo de redacção de formação ideológica e política esclarecida e com uma forte sensibilidade ao contexto social e político do país. Vicente Jorge Silva e José Manuel Barroso, embora temperamentalmente e ideologicamente diferentes eram possuidores de uma afinada verve jornalística. A audácia da sua juventude e o panorama novo que trouxeram ao jornalismo rodearam o projecto de um apoio escondido até por algumas entidades locais.»
De alguma maneira, o  «cor-de-rosa» era uma lâmpada acesa a favor das lutas por uma desejada autonomia. Já referi atrás este factor favorável à implantação do CF num meio tão fechado e conservador. No plano cultural, apenas se pode referir a existência do Forum do Funchal, um paralelo aos cine-clubes de outras cidades do país. 
Mas este grupo de jovens já tinham ensaiado outras experiências. Particularmente, lembro-me das «páginas juvenis» albergadas no então tido como o jornal mais progressista da Região (ironias do destino), o  Jornal da Madeira onde com um saudável vislumbre de outros tempos, com um arejamento cultural, cívico e político contra a corrente de um Ilha de cultura e costumes empedernidos. E, aqui, sem qualquer sentido de apoucamento do valor dos outros jovens, alguns até futuros poetas da língua madre, é indesmentível destacar a liderança de Vicente Jorge Silva.  Apesar de eu não perfilar teorias do predestino gestacional – devo reconhecer que Vicente possuía uma genuína dotação natural para o jornalismo. Para um jornalismo autêntico de libertação (onde facto só a liberdade coexiste), de procura do novo, de compromisso com a constante mudança da vida com dinamismos próprios, sem concessões aos actores e autores que, por isto ou aquilo a tentam travar. Vicente, um perseguido pela “vesgueirice” dos arregimentados das sopas do Estado Novo, inclusive por invertidos professores liceais que o expulsam dos estudos de obrigatoriedade escolar à face das leis do país, nunca «quebrou», nunca se «vendeu». Nem quando passou pelo Expresso, nem no PÚBLICO, um outro projecto inovador com a sua marca pessoal original, nem quando imprevistamente se sentou na Assembleia da República. Lembro-me que quando eu chefiava a redacção do Jornal da Madeira alguns destes foram «bilhardar» a D. João  Saraiva como é que eu admitia que este jovem escrevesse no jornal da diocese, crítica de filmes, então para maiores de 18 anos, quando ele o autor era menor. Não condenavam as críticas, condenavam a idade.
Vicente, para mim, é de uma superior qualidade humana (e tenho testemunhos particulares disso que, aqui, não é o lugar próprio para nomear), com uma racionalidade de grande inteligência e com uma cultura e competência literária, histórica e política que, criminosamente, outros (ir)responsáveis quiseram que nunca tivesse.
Sei que este memorial que os coordenadores da PORTA33 organizaram é dedicado ao cor–de–rosa e não propriamente ao Vicente Jorge Silva. Porém, sem esquecer todos os outros colaboradores, creio que relevar o criador da obra é um acto de justiça de que os outros não devem levar a mal. Antes apoiar, como com o seu apoio ao tempo foram «culpados» deste verdadeiro “fenómeno” de cometa jornalístico que passou pela Madeira nos anos das noites e dias negros. Bem hajam todos e a PORTA33 que tem boa memória.

José Manuel Paquete de Oliveira
20 de Novembro de 2015

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