Porta33 — Funchal, Madeira — Sábado 13 de Dezembro de 2014

Queridos Amigos,

Peço a todos imensa desculpa por não poder estar presente neste encontro de pessoas amigas. Não é por  não querer, acreditem.
            Podem calcular como estou triste por faltar a esta apresentação de coisas que fiz (há tanto tempo!).
            Por não poder explicar de viva voz porque foram feitas, e não poder observar a vossa reacção perante elas, pois, sinceramente, pensava que já ninguém lhes acharia graça.
            A Cecília e o Maurício, e a sua mágica Porta33, apostaram nesta divulgação, e estou-lhes muito, muito grato.
            A paciência, as despesas e principalmente, a simpatia que nos têm demonstrado desde há tanto tempo, são, como se diz “fora de série”, ou “5 estrelas.”
            Muito obrigado, ousados galeristas, em meu nome e no da Lira por tudo!

 

 

O que me anima é o provérbio “não há duas sem três!” que costuma ser verdadeiro.

 

 

A minha ligação à Madeira vem de 1969, quando fiz parte da equipa liderada pelo Arquitecto José Rafael Botelho que estudou um plano director de urbanização para o Funchal — encomendado pelo Presidente da Câmara de então Dr. Fernando Couto: um senhor muito distinto e correcto, com os seus princípios “à antiga”, digamos, mas impecável no seu trato connosco.
            Para vos dar uma ideia: quando o Arquitecto Botelho cá veio pela primeira vez , estava em construção um prédio, moderno, ao lado da Sé, com uns seis pisos, ou coisa assim. A primeira exigência do urbanista foi que se demolissem os 3 andares de cima, para que o edifício — já de si dissonante — não afrontasse mais a pobre da igreja histórica, edifício classificado.
E o Dr. Couto deu-lhe razão, e mandou demolir os andares, gastando nisso uma grossa fatia do orçamento municipal! (Não faltaram os críticos, está visto, e a simpatia pelo arquitecto urbanista ficou minada logo ali por certos interesses locais).
Eu e o meu colega José Luís Zuquete, constituíamos a “testa de ponte” da equipa, residindo aqui em permanência, com as nossas famílias todas. Dois anos.
O resto da equipa funcionava em Lisboa, para onde enviávamos os estudos e pareceres que íamos fazendo.
            O Arquitecto Botelho vinha uma vez por mês, e ficava no hotel Miramar — tão simpático, que retratei num dos meus desenhos; assim como aparece fotografado no “Amor que Purifica” onde, aliás, foi apresentado ao público pela primeira vez.
            O nosso trabalho na Câmara Municipal foi sempre bom e apoiado por pessoas prestáveis e amigas de ajudar, de quem guardámos saudades.
            Fazíamos muito trabalho “de campo”, fotografando, analisando o estado dos edifícios, do trânsito, enfim, todos os problemas que uma cidade tem e, como sabem melhor que eu, o Funchal tem bastantes (nessa altura teria, talvez outros, diferentes, mas eram, de facto, muitos) .
            Como esta lenga–lenga já está comprida, vou só contar duas histórias, para não ser chato de mais.
Uma vez, eu e o meu colega Zúquete, saímos para vistoriar um edifício antigo, que tinha um projecto de alterações na Câmara.
            Era na zona antiga, não longe da Câmara, e estávamos com dificuldades em descobrir a rua. Encontrámos um polícia e perguntámos-lhe, obtendo logo a resposta. Agradecemos e já íamos a uns largos metros quando o guarda nos chamou para dizer: — mas os senhores já não encontram lá aquilo que procuram (as meninas tinham-se mudado há algum tempo para outro local...)
A outra não é bem uma história, por ser muito frequente: — às Quintas-feiras recebíamos os munícipes, que nos vinham apresentar intenções, ou saber do andamento de projectos já entregues na câmara.
            Ouvíamo-los com toda a atenção e boa vontade... só que isso, geralmente, não era suficiente. Eu tinha que ir à sala ao lado, chamar o topógrafo e pedir-lhe: — Senhor Lino, tenha paciência, e venha aqui traduzir-me o que estas pessoas querem...

 

            O Arquitecto Botelho, de quem somos muito amigos, e a quem visitei antes de apanhar o avião para cá, tem hoje 92 anos, mas uma lucidez perfeita.
Contou-me vários aspectos que eu desconhecia, ou já esquecera.
A Cecília e o Maurício disseram-me que era possível estarem arquitectos aqui, esta tarde, a quem talvez interessem estes assuntos. As minhas saudações para todos e aqui vai um breve historial:
            O plano ficou concluído em dois anos (1969-1970).
            O Arquitecto Botelho, como excelente profissional que sempre foi, apresentou propostas cheias de bom senso, que é difícil estar aqui a pormenorizar, mas que destacavam o valor do que existe (ou existia) na cidade: — a zona histórica, a frente-mar, as quintas, os problemas de trânsito — com a criação duma via de envolvimento da cidade à cota 40, e outra mais acima julgo que à cota 100, e claro, sem esquecer o desenvolvimento do grande turismo, e a habitação para a população, com os equipamentos sociais necessários.
            Mas tudo disposto de tal forma que não se prejudicasse mutuamente. E aqui é que tudo se tornava mais difícil.
            Havia grandes (e pequenos) interesses em jogo, que não era fácil conciliar.
            O Arquitecto Botelho promoveu encontros com as entidades locais; ouviu inúmeras pessoas “graúdas” cá da terra, e outras mais “normais”.
            E, quando se aproximava a conclusão do estudo, pediu para realizar um “colóquio” para discussão pública das respectivas propostas.
Vieram, convidados, personalidades ilustres de Lisboa, como economistas, ambientalistas, além de toda a equipa de projecto.
Mas os ânimos estavam tão exaltados, podia esperar-se uma contestação tão grande, que a câmara teve que pedir segurança especial de polícia para o grande salão onde a conversa decorreu!

 

 

A propósito disto, escrevi um texto humorístico que enviei, depois, ao Arquitecto Botelho,  com a particularidade de ser todo feito a partir das frases de um livro intitulado “Falares da Ilha”.
Assim, resumindo, começava:
“Dia de barrer os armários” (é uma data a seguir às festas que foi quando se realizou o encontro) “estava de Noruega. Uma lubrina desvarar e abicar o pelame”
Depois segue-se o percurso de alguém (chamemos-lhe o Maurício) que atravessa a cidade até que dá com uma cena de pancadaria na rua.
“C´o flame assim esfuziando, emberfilham-se aos soquetes, batatadas nas ancas e conta-pés no ai de copas.
— Ih c´o bamblú! C´o poder de pancume!”
— “P´o quera isto? — diz o Maurício, imandigando.
— Basta que sim! P´o causa do colóco da Cambra”

Bom: — concluído o plano de urbanização — seguiu para as instâncias superiores e, caso raro, foi aprovado num tempo record, pelo Conselho Superior de Obras Públicas!
Tomem nota disto, agora, que é interessante:
— o Dr. Fernando Couto, consta que no próprio dia em que recebeu a notícia da aprovação do plano, pediu a sua demissão, afirmando: — a minha principal missão para com a cidade está concluída! (imagine-se como seriam o ambiente e as pressões na época!)

 

Com a mudança do executivo da Câmara tudo esfriou. O tempo foi passando, até que, a dada altura, a Câmara encomendou um novo plano a uma outra equipa.
            Aliás muito correcta, pois cumprimentou o plano anterior como sendo “um excelente trabalho mas... ultrapassado” e fizeram outro que, confesso, não conheço.

 

 

Entretanto, veio a época do grande boom da construção civil!
Vieram as verbas da União Europeia.
Veio aquela máquina fantástica que faz furos no basalto.
            E o resto que todos vós conheceis, portanto a minha recordação acaba aqui.

 

Muitos anos depois, em 1984, ainda voltei ao Funchal pelas mãos do Arquitecto Botelho, para ajudar a montar uma exposição relativa à cidade, e na companhia do jovem colega Victor Mestre, que estudava a reabilitação da zona histórica (e que tanto gostou desta terra que foi capaz sózinho, de realizar o estudo da “Arquitectura popular da Madeira”, publicado anos depois num volume monumental).

 

Poderá dizer-se, com alguma verdade, que o nosso trabalho de 2 anos serviu para pouco.
            É uma situação vulgar em Portugal. Estamos habituados.
Mas teve outras compensações, que passo a contar.
            Viemos encontrar estas paisagens lindas (embora já existissem alguns atentadozitos...)
            Este clima esplêndido.
            O mar, a fruta, os rebuçados de funcho, as queijadas da Felisberta, as lapas, as bolachas de água e sal da Fábrica de Santo António, o Bazar do Povo com o sistema genial de enviar o dinheiro para a caixa por via aérea, etc. etc. etc.
            E, principalmente, viemos conhecer pessoas tão interessantes e queridas como o Arquitecto Marcelo Costa, a Eduarda e a Marcelinha, e reencontrar, nas férias, a Lourdes Castro e o René Bertholo, nossos colegas das Belas-Artes e queridos amigos — e não só, claro...
            Graças àquele boom de construção que já referi, surgiram vários arquitectos, na maior parte para trabalhar no atelier do Arquitecto Góis Ferreira — o Manuel Vicente, o Paradela, mas tarde o João Conceição, o Luiz Moreira.
            Resumindo, criou-se um convívio muito agradável, e como a gente das artes é dada à fértil imaginação, encontráva-mo-nos  e fazíamos brincadeiras, quer teatrais quer, por fim, fotonovelescas, como já viram.
            A Lourdes era a nossa estrela, é evidente; o Marcelo um cómico excepcional (recordo um cartaz-colagem em que ele acrescentou o seu retrato ao dos 3 irmãos Marx).
            E os outros participavam melhor ou pior, desde as crianças aos crescidos — e todos bastante felizes.
            Acho que isso se nota nas produções que fizeram.
            Foram dois anos bons da nossa vida.

 

 

Em 1971 tínhamos regressado a Lisboa
Em 1971 morreu Leonor, minha primeira mulher (a abnegada “enfermeira-chefe” do “O Amor que Purifica”)
Em 1971 casei com a madeirense Lira, também colega da escola de Belas-Artes, e amiga de brincar. Juntámos numa família as suas 3 filhas e os meus 3 filhos.
(um pouco depois nasceu a nossa filha Leonor e, tal como aconteceu nos tempos bíblicos ao Senhor, ao sétimo descansou!)
Toda esta miudagem desatou a participar também nas nossas brincadeiras, como verão.
 Outro motivo de prazer que tivemos nos dois anos da Madeira foi a aparição do “Comércio do Funchal”, ou “jornal cor-de-rosa”, um periódico independente, com uma direcção jovem e dinâmica, que aproveitou o abrandamento da censura e, talvez, a chamada primavera marcelista, e que tinha qualidade e vida.
            É curioso e elucidativo que, no Portugal deste tempo — já nos anos 70 — apenas havia, em todo o País 4 jornais que tinham características semelhantes: o Diário de Lisboa, o Jornal do Fundão, o Notícias da Amadora e este Comércio do Funchal!
            Sentindo gosto em colaborar com esta gente nova e esclarecida, comecei a fazer desenhos mais ou menos jocosos e de motivos locais, que eles iam publicando.
Constituem a maior parte dos que aqui estão expostos.

 

Encontrei, por outro lado o livro “Elucidário Madeirense”, uma obra de vulto sobre a história desta terra e, como tenho um espírito um pouco irreverente, fui lá desencantar situações e personagens que me divertiram, e resolvi ilustrá-las.
Encorajado até pelo Dr. Fernando Couto, a quem as mostrei, fez-se um livrinho com os textos e as respectivas imagens, impresso numa tipografia local e numa dose tão optimista que ainda hoje tenho embrulhados, com a embalagem e os selos do correio, uma porção deles (jeito para o negocio é que nunca tive... ).
Noutra sala desta prestigiada galeria estão expostas todas as ilustrações (e há livros para quem os queira comprar... ).
Na parte final do texto de introdução, refiro que tive muito gosto em viver e conhecer melhor a Madeira e, quem sabe, noutro sítio para onde fosse viver teria vontade de ilustrar também os seus usos e costumes.
Isso não aconteceu mais.
Em 1973 e 1974 vivemos nos Açores, outra vez a trabalhar com a equipa do Arquitecto Botelho, desta vez num plano de ordenamento territorial de Ponta Delgada.
Foi também interessante, mas menos estimulante.
Ilustrei uma sequência de normas didácticas que acompanharam a apresentação do plano, meio a brincar, mas para uso prático.
Passámos lá o 25 de Abril.
Naquela actividade político-social que se vivia, envolvemo-nos na publicação de jornais policopiados, onde também fiz um ou outro “cartoon”.
E, numa visita relâmpago à Ilha Terceira, pintei com “vieux-chêne” da drogaria, uma série de painéis “revolucionários”, expostos no dia seguinte.
Utilizei, abusivamente, a técnica de sombras projectadas de pessoas, em tamanho natural, roubada à Lourdes Castro.
Mais tarde, 1978, fomos viver em Moçambique e, aí também, numa obra que concluí (uma pousada) pintei no hall as sombras do mestre de obras e os seus 37 operários, que gostaram imenso.
E, há pouco tempo, fiz as sombras fixas da Lira e da nossa filha Leonor num espectáculo intitulado “Miraginava”, apresentado lá pela Beira Alta.
Acho que a Lourdes Castro bem precisava de arranjar um advogado competente, pois tinha todas as razões para me fazer um processo... há que tempos...

 

“O LOTE MALDITO”
Com a embalagem adquirida na produção do “O Amor que Purifica”, e uma equipa onde havia 2 arquitectos e um escultor (sempre a imaginação...) fomos fazer um “western” numa herdade do Marquês da Fronteira — com os métodos primitivos das fotonovelas anteriores: — slides fotográficos, fita gravada.
O Marquês da Fronteira, D. Fernando Mascarenhas, faleceu há poucos meses.
Era uma pessoa inteligente, culta e politicamente esclarecida.
Adquirira ao João Cutileiro um enorme guerreiro, que colocou na sala principal do seu palácio em Lisboa, a qual é toda forrada com históricos painéis de azulejo, recordando as batalhas ganhas pelo seu antepassado. Fica muito bem.
Amigo das Artes, portanto, e bem disposto aderiu entusiasmado a esta brincadeira — que foi feita in loco (e que bonito loco!) num único fim-de-semana.
Que a terra lhe seja leve, como costuma desejar-se a quem nos mereceu estima.

 

A transcrição para DVD foi feita há meses, apenas. Perdeu qualidade. Desculpem. Era inevitável.
Mas quisemos trazê-la para vos mostrar e, os que viram as outras, encontrarão alguma referencia “dejá vue”.

 

Chamo-lhes a atenção para 2 pormenores que podem não ser vossos conhecidos:
Muita da (má) construção de Lisboa foi feita por empreiteiros oriundos da cidade de Tomar que eram conhecidos pelos “patos bravos”.
Um empreendedor imobiliário que ficou famoso pelas suas grandes negociatas clandestinas, chamava-se J. Pimenta. Na fotonovela é J. Pepper.

Oxalá achem alguma graça a este humor arquitectónico.
Obrigada pela paciência.
E abraços do Pitum

 

 

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