O Amor que Purifica e Trotoário Azul

As fotonovelas daqueles Verões passados

Lourdes Castro, René Bertholo, e os amigos, entre os quais José Paradela, Pitum Keil do Amaral, Eduarda e Marcelo Costa, juntavam-se nas férias e divertiam-se a fazer novelas nas ruas do Funchal, com playboys, “raparigas modernas” e sheiks árabes. O dvd e o livro saem agora, mais de 40 anos depois. Memórias de Verões “em que tudo batia certo”.

Verão de 1969. Um grupo de amigos junta-se de férias no Funchal, ilha da Madeira. Os artistas Lourdes Castro e René Bertholo chegam de Paris, onde vivem na altura, com uma passagem pelos souks de Marrocos. Levam com eles para o Funchal túnicas e lenços, e também um grande poster de um filme, um drama de amor, El Moustakbal el Moghoul (em francês L’Avenir Inconnu). Lá encontram os amigos, José Paradela, Pitum Keil do Amaral, Eduarda Costa, Marcelo Costa. E nos longos dias de Verão do Funchal, juntos fazem uma fotonovela:O Amor que Purifica.
No ano seguinte, voltam a juntar-se, percorrem a paisagem da Madeira, e filmam-se novamente, repetindo as brincadeiras, subindo a um velho barco, vestindo-se de sheiks e princesas, mergulhando vestidos nas ondas da Praia Formosa. Chamaram ao filme (este em 16 milímetros), que só seria terminado em 72, Trotoário Azul, brincando com a expressão madeirense criada a partir da palavra francesa trottoir.
Passam-se mais de 40 anos. Em 2000, a Porta 33 do Funchal está a produzir para João Penalva um trabalho em video com o cineasta mexicano Rafael Ortega e surge a ideia, com Manuel Zimbro, de repegar no material que Lourdes Castro guardou desses Verões: perto de 200 diapositivos, dois filmes em Super 8, uma banda magnética, e ainda um disco em vinil que acompanha o primeiro filme, e ainda o filme em 16mm. 
Até essa altura, era necessário reunir uma grande quantidade de material técnico de cada vez que se queria mostrar O Amor Que Purifica. Agora, com o trabalho da Porta 33 e de Rafael Ortega, tudo isto passou a estar num único vídeo, que pode ser visto na Porta 33 até 22 de Fevereiro, e que estará em Lisboa, na Culturgest, a 3 e 5 de Abril. A acompanhá-lo foi lançado um livro que reúne as duas fotonovelas – que são “Exclusivos foto-novelo”, porque novelos é como na Madeira se chama às hortências.
Nas imagens a preto-e-branco de O Amor que Purifica e do Trotoário Azul surge o Funchal do final dos anos 60, misturando realidade e ficção. Numa esplanada estão três galãs à conversa; junto a um carro de modelo antigo passa uma rapariga, Lisa, descrita na apresentação das personagens como “uma rapariga moderna”. Quanto aos rapazes, Renato (René, de grande cabeleira aos caracóis) é “um playboy de bons sentimentos”, Giani, “um playboy como todos…” e Guido, apenas “outro playboy”. Os três vão disputar o coração de Lisa, numa história que terá contornos dramáticos antes de terminar num final feliz – com um enorme humor e um inegável lado estético.
A meio da história de O Amor que Purifica surge o primeiro mini-filme, um sonho povoado de imagens estranhas em que, com a Praia Formosa ao fundo, aparece uma cadeira de verga, um sheik árabe, uma princesa, um homem com um turbante na cabeça. O imaginário árabe tinha a ver, claro, com a passagem de Lourdes e René por Marrocos. “Se tivéssemos ido ao Japão o sonho teria sido diferente”, diz Lourdes, rindo.
As sessões fotográficas aconteciam em locais populares na época, o Hotel Miramar, o Club Naval, o café Sunny Bar, o cais do Funchal, e as “rochas sobranceiras à Praia Formosa” – a praia de Lourdes, que a artista homenageou também num livro de fotografias antigas da família, A Praia Formosa (edição Assírio e Alvim).
Que memórias tem Lourdes do Funchal desse tempo? “Na altura, eu e o René já estávamos fora de Portugal, mas tínhamos uma casinha na Praia Formosa… íamos ao mar, não se fazia muito”. No Trotoário “vê-se que ainda há carros de bois, camionetas antigas, a Praia Formosa ainda estava vazia, sem os hotéis que construíram depois. Não havia tantos cruzeiros, tanta gente no Funchal”.
Havia tempo, imaginamos. Faziam teatro, sim, isso foi algo que sempre gostaram de fazer quando reencontravam os amigos. Lourdes criaria mais tarde o Teatro de Sombras, mas estes teatros transformados em fotonovelas e filmes que faziam aqui nas férias do Funchal eram uma brincadeira despretensiosa.
“Era tudo brincadeira e tudo a sério, muito a sério”, diz Lourdes. E percebe-se o que ela quer dizer. Afinal, ali estavam dois artistas e vários arquitectos, e, mesmo a fazer uma fotonovela, sabiam como devia ser, como enquadrar, como brincar com uma linguagem que era, então, a de revistas como a Crónica Feminina.
Os pormenores de como cada filme nasceu já se perderam, mas Lourdes recorda que era tudo feito em conjunto, ideias que se lançavam para o ar, adereços que iam aparecendo. A questão da autoria não faz sentido aqui, a realização é colectiva e assinada por René Bertholo, José A. Paradela, Pitum Keil do Amaral, Lourdes Castro, Eduarda e Marcelo Costa, Leonor Bettencourt, João Conceição, Alexandra Santos, Luís Moreira, Marcela Costa e Jorge Sumares.
No início do livro aparecem imagens de uma “reunião ao ar livre” e das “assembleias”, com, numa delas, os autores/actores vestidos com as suas roupas árabes – outra brincadeira, como se o projecto tivesse sido meticulosamente planeado em organizadíssimas reuniões.
O Amor que Purifica foi mostrado pela primeira vez no Bar d’Inverno do Hotel Miramar, no Funchal, a 18 de Agosto de 69, e o leque-convite para essa sessão aparece também no livro, com a indicação de que, para assistir a esta estreia, era necessário “traje de espectáculo”. A mesma fotonovela voltou a passar no Funchal, no Salão-Ginásio da Escola Industrial, depois de um ciclo de expressionismo alemão. E foi depois mostrada por Lourdes e René em Paris, em pequenas sessões em casa de amigos, Teresa e Norberto, Jan Voss, Bernard Heidsieck e Françoise Jericot (os cuidadíssimos convites são também reproduzidos no livro) e numa sala do grupo Grand Magic Circus, de Jérôme Savary. 
“O livro não só permite a inclusão da tradução [o texto aparece em português, francês e inglês] como nos permite juntar alguns documentos que ajudam a situar estas novelas na época, e os locais onde foram mostradas”, explica Maurício Pestana Reis, o fundador, com Cecília Vieira de Freitas, da Porta 33.
Quando surgiu a oportunidade de recuperar os filmes, Maurício e Cecília não hesitaram. Em primeiro lugar por Lourdes Castro, com quem têm uma profunda relação desde há muito tempo, mas também pela ilha onde que todos vivem. “Estes filmes permitem conhecer a Lourdes noutras facetas do seu trabalho, e o grande amor que ela tem pelo teatro e as artes performativas. O Teatro de Sombras, com Manuel Zimbro, são peças fundamentais no percurso artístico dela, mas são sombras, aqui podemos vê-la representar. Além disso é um trabalho em conjunto, que mostra o lado de grande generosidade da Lourdes”, continua Maurício. “E para nós é importante também porque gostamos muito da Madeira, e para os madeirenses os locais das filmagens são icónicos”.
“Nunca pensei recuperar as fotonovelas”, confessa Lourdes. “Foi a Porta 33 que salvou isto, ia-se estragar com certeza”. Mas quando o público vê “toda a gente fica tão divertida”. Passados 40 anos, a brincadeira de Verão deste grupo – de artistas e arquitectos, é preciso não esquecer – renasce. O que aqueles amigos viveram naqueles Verões foram, diz Lourdes, “momentos excepcionais, daqueles em que de repente tudo se encaixa e bate certo, momentos que caem do céu”.

Alexandra Prado Coelho
Público, 20 de Dezembro de 2013

 

 

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