ALBERTO CARNEIRO
Os caminhos da água e do corpo sobre a terra
23.03.2003 > 31.05.2003

A evidência da natureza na construção da relação humana com o mundo

A obra de Alberto Carneiro suscita uma reflexão particular sobre a condição da arte enquanto criação de uma evidência da natureza na construção da relação humana com o mundo. O fazer do artista releva da acção do corpo sobre a matéria, reinventando os sentidos possíveis de uma apropriação e transformação do natural pelo humano. Este processo reitera a consciência da arte e da criação como um programa de interpretação do mundo, no qual o corpo é revelado através das operações decorrentes das metamorfoses desse mesmo mundo originadas pelo seu agir.

A escultura resulta assim de uma convergência entre o espaço e o tempo, os quais coincidem na revelação recíproca do natural e do humano no acto genésico da criação artística e do programa de reflexão que a ela se torna inerente. A escultura transforma-se num acontecimento, num evento omnisciente das condições de enunciação que a definem enquanto situação de um sujeito nas coordenadas espácio-temporais que lhe definirão uma identidade, a qual resulta de um processo de individuação da emoção estética atrvés da inscrição e nomeação do momento que o artista partilha com o seu espectador.

Quando o próprio artista propõe uma definição para a sua arte como uma “arte ecológica”, convém não confundir esta denominação com o programa hoje trivial e politicamente correcto de uma ecologia que apenas se reduz à reiteração das evidências que se encontrem em processo de desaparecimento ou situação de raridade. A proposta de um Manifesto de arte ecológica resulta antes daquilo que o escultor enuncia como um programa relacional: “a relação consciente dos significantes na ordenação de uma crítica profunda sobre os significados que virão, depois, como autenticidade das relações com o mundo” 1. A criação artística reinvindica uma sua condição demiúrgica e fenomenológica nesta relação reciprocamente genésica que estabelece entre a natureza e o ser humano: “A natureza recriada à nossa imagem e semelhança: nós dentro dela e ela polarizadora dos nossos sentimentos estéticos” 2. A escultura de Alberto Carneiro resulta assim de um programa de transferências biunívocas entre os significantes da natureza ( uma árvore, uma pedra, uma flor, a água, “um punhado de terra”) e a universalidade dos seus significados, construída a partir da operação poética da sua proposição e da partilha da emoção estética da reconstituição individual das suas referências materiais.

A criação e a percepção da obra de arte cruzam-se na obra de Alberto Carneiro numa sua matriz indistinta. A dimensão genésica da primeira advém de um programa de apropriação e nomeação de materiais, processos e referências metafóricas que jamais encerram o espectador num contexto denotativo restrito: antes, pelo contrário lhe estendem as possibilidades de uma aproximação cúmplice, partilhada numa ampliação da experiência dos sentidos em associações cognitivas abstractas que lhes sublinham a sua materialidade. Corpo e natureza apresentam-se e autodefinem-se reciprocamente enquanto instâncias mediúnicas da relação estética, a qual se desenvolve em programas precisos onde a acção e a reflexão se indissociam, na coincidência entre o trabalho dos materiais e das situações com um mapa conceptual entre a vida e a arte.

Texto de João Fernandes in catálogo Alberto Carneiro, Centro Galego de Arte Contemporánea, Xunta de Galicia, 2001.

1 Alberto Carneiro, “Notas para um manifesto de arte ecológica” (Dezembro 1968 - Fevereiro 1972), Alberto Carneiro, Exposição antológica , Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Fundação de serralves, Porto, 1991, p.62
2 Ibidem

The Evidence of Nature in the Construction of the Human Relationship with the World

The oeuvre of Alberto Carneiro awakens a specifica reflection on the condition of art as the creation of an evidence of nature in the construction of the human relationship with the world. The artist´s work throws into relief the action of the body over matter, reinventing the possible meanings of an appropriation and transformation of the natural by the human. This process insists upon awareness of art and cration as a programme of interpretation of the world, in which the body is revealed through the operations resulting from the metamorphoses of that same world originated by its behaviour.

Sculpture thus originates from a convergence between space and time, which coincide in the reciprocal revelation of the natural and the human in the generative act of artistic creation and of its inherent programme of reflection. Sculpture is transformed into an event, an omniscient occurrence related to the conditions of the formulation that define it as the situation of a subject within the spatio-temporal co-ordinates that grant it an identity, an identity resulting from a process of individualisation of aesthetic emotion through the insertion and nomination of the moment shared by artist and beholder.

 When the artist himself attempts to define his art as an “ecological art” it is advisable not to mistake this denomination for the programme - which today is both trivial and politically correct - of an ecology reduced almost to the vindication of realities in the process of disappearing, or in minority situations. The proposal made by a Manifesto de arte ecológica (Manifesto of Ecological Art) stems rather from what the sculptor announces as a relational programme, “the conscious relationship of signifiers in the organisation of a profound criticism of the meanings that will subsequently emerge as an authentication of relationships in the world”.1 Artistic creation claims for itself a demiurgic and phenomenological condition in this reciprocally generative relationship established by nature and the human being, “Nature recreated in our own image: us inside her and she, polarising our aesthetic feelings.” 2 Alberto Carneiro´s sculpture is thus a result of a programme of “bi-univocal” transfers between nature´s signifiers ( a tree, a stone, a flower, water, “a fistful of soil”) and the universality of meanings, contrived from the poetical operation of its proposition, sharing the aesthetic emotion of individual reformulation of its material references.

The creation and perception of the work of art converge in the oeuvre of Alberto Carneiro in one single indistinct matrix. The generative dimension of the former is derived from a programme of appropriation and nomination of metaphorical materials, processes and references that never trap the beholder in any restricted denotative context. On the contrary, they show him the possibilities of a shared allied approximation within an enlargement of sensorial experience by means of abstract cognitive associations that underline its materiality. Body and nature are reciprocally introduced and self-defined as categories susceptible of mediating in aesthetic relationships. These relationships develop within precise programmes where action and reflection cannot be dissociated as a result of the coincidence between the rôle played by materials and situations and a conceptual map of the relationship between art and life.

By João Fernandes in catalogue Alberto Carneiro, Centro Galego de Arte Contemporánea, Xunta de Galicia, 2001

1 Alberto Carneiro, “Notas para um manifesto de arte ecológica” (Dezembro 1968 - Fevereiro 1972), Alberto Carneiro, Exposição antológica , Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; Fundação de serralves, Porto, 1991, p.62
2 Ibidem

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