Ver com olhos de escutar
Synthetic Statistics, exposição sensorial de Florian Hecker

texto de Susana de Figueiredo a partir de uma conversa com o artista

As paredes da sala de exposições principal, outrora brancas, sobressaem agora pintadas a tinta CIN 05G4, servindo de contexto cromático a Synthetic Statistics, exposição concetual e sensorial do criador alemão Florian Hecker, que abre ao público no próximo sábado, pelas 18h00, na Porta 33. Como descrever este projeto? Talvez a sua essência seja impossível de traduzir numa linguagem lexical, já que falamos de uma experiência eminentemente imersiva e intuitiva, em que, através de composições plástico-sonoras, o fruidor é convocado a experimentar outras dimensões, quer de si mesmo, quer do espaço que o rodeia. “Não creio que Synthetic Statistics possa explicar-se por palavras; trata-se de algo que escapa à linguagem, que tem de ser experimentado pela audiência para ser entendível.” A afirmação é de Florian Hecker, em resposta a um pedido de descrição de Synthetic Statistics. Segundo o autor, que, desde muito cedo, se apaixonou pela música eletrónica – e não se imagina a fazer outra coisa se não o que faz – as suas composições não nascem necessariamente de um sentimento ou de um estado de espírito, mas de um estudo e de uma intuição; da busca por uma lógica, por um sentido formalizado e estruturado. O processo só se conclui no confronto com a audiência, na interpretação que esta faz das peças a que é exposta, interpretação essa que resulta não apenas daquilo que se escuta, mas de tudo quanto se pode experimentar para lá da própria escuta. “Há sempre algo mais dentro de uma sonoridade. Um som não é só aquilo que se ouve.”, defende Hecker, notando que o cenário montado na Porta 33 – além da nova cor nas paredes, há cabos e focos de iluminação a alimentar a cena – proporcionará aos visitantes uma viagem, por vezes sinestésica, que se propõe expandir todos os sentidos do corpo, da pele primária ao nervo último, abrindo novas geografias internas e despertando convocações para diferentes leituras do tempo e do espaço. Pretende-se, com esta experiência, deseclipsar conceitos adormecidos atrás dos olhos e desbravar todo um território psíquico-sensitivo, muito além-auscultação. Synthetic Statistics é uma criação capaz de “tocar toda a gente”, afirma Florian, embora deixe claro que prefere despir-se de quaisquer expetativas relativamente às reações do público. “Cada evento é sempre um encontro subjetivo. Nunca sei o que vai acontecer, e isso torna tudo ainda mais interessante.”, explica.

No mundo atual, em que os espaços e tempos de silêncio são cada vez mais escassos, há quem clame pela ausência de som enquanto outros se sentem confortáveis na omnipresença de uma ‘banda sonora’, mas Hecker sustenta uma visão bem diferente a este respeito. Questionado sobre a relação que mantém com o silêncio, e o lugar que este ocupa na sua vida, o autor surpreende-nos com esta resposta: “Creio que nunca experimentei o silêncio. Para mim, o silêncio simplesmente não existe, é uma fantasia. Há sempre algum som no ar, há sempre alguma coisa a acontecer.”

Synthetic Statistics será um acontecimento [acometimento] inédito na Porta 33, que está a ultimar os preparativos para esta imersão numa nova linguagem. Ao ganhar esta morada, a obra de Florian Hecker interseta-se, inevitavelmente, com os espaços e subespaços da Porta, traduzindo-os à luz de uma nova gramática, enquanto os aproxima da sua própria matriz para, no mesmo movimento e do mesmo sopro, os fazer levantar da terra rumo a uma outra multidimensionalidade. Acrescenta-lhe, deste modo, uma nova ordem, declina-o noutras lógicas. Provoca um novo encontro. Está quase.

A sessão de abertura de Synthetic Statistics contará com a presença de alguns dos mais notáveis nomes da arte contemporânea internacional, nomeadamente Miguel Wandschneider, membro da Guy de Cointet Society (Paris), que, durante uma década, foi responsável pela curadoria do programa de exposições da Culturgest; Michael Newman, professor no Departamento de Arte de Goldsmiths da Universidade de Londres, e Robin Mackay, diretor da Urbanomic Media Ltd, editora que divulga a relação interdisciplinar na arte contemporânea. Os três juntar-se-ão a Florian Hecker, numa conversa sobre o projeto expositivo apresentado na Porta 33.


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