Lourdes Castro
Porta33




 

 

Baixei a cabeça, os meus olhos ficaram presos ao meu vestido novo, era branco com florezinhas e pintinhas pretas.

Devia ser muito pequenina quando o Avô Jacinto morreu.

Depois só me lembro do auto-retrato, das fotografias todas que ele tirou.

Gostava quando especialmente a Avó Laura mas mostrava, comentando: o Tio Luiz quando era pequeno, a Mãe bebé no jardim da Praia ao meu colo, aqui já crescida com amigas e amigos que vinham passar a tarde para brincar e algumas pensionistas do Colégio da Avó, que aqui passavam o Verão, como a Berta, a Irene, e a Isaura, três irmãs que tinham vindo de São Tomé.

A fazenda, a vindima, a apanha da cana-de-açúcar, o jardim. Eu acrescentava: como a palmeira cresceu! Havia um araçaleiro, muitos muitos mangueiros, um poio inteiro, um cardeal vermelho vivo e outro com as pétalas bem recortadas1 da flor que pendia, uma goiabeira, uma árvore que dava flores cor-de-rosa2, adorava metê-las na boca, sabiam a papel de seda...

Uma anoneira tão grande como uma casa, boninas à sombra no caminho até o palheiro atraindo os besouros ao fim da tarde, um ligustro ao pé do muro, mioporos para proteger do vento de sudoeste; a figueira — bêberas brancas com mel no bico — perto do pombal, a alfarrobeira ao pé do portão da entrada, pitangas das pretas, um jacarandá, jasmin, gaitinhas3 no xadrez, que se enchiam de flores alaranjadas pelo Natal. E a canforeira! Enorme, plantada pelo Tio Luiz.

Para ir ao banho descíamos pela rocha e pelo areão, desviávamo-nos das tabaibeiras4, pelo caminho funcho bravo, goivos da rocha, aromas brancos. Atravessávamos as bananeiras já lá em baixo e estávamos na praia, tão vasta, tão larga. Formosa porque vazia!

Em dias de levadia, ouvíamos em casa o barulho do mar a arrastar pelos calhaus. Rolava-os dia e noite, anos, séculos, até que bocados de basalto ficassem assim tão lisos e macios. Um calhau é uma obra-prima!

Quem não conseguiu andar descalço por cima dos calhaus, ora saltando ora equilibrando-se nos calhaus maiores.

Hoje, como um quarto atravancado de móveis, a Praia Formosa encheu-se de imóveis.



Agradeço ao Avô ter deixado o seu olhar na beleza deste sítio.
E grata ao céu e à terra eu ter começado a respirar aqui.
LC
2006


1 hibicus skisopetalus / 2 lagerestroemia indica / 3 pyrostegia venusta / 4 opuntia tuna (piteira)

 

 

I lowered my head. My eyes stared at my new dress. It was withe, with little flowers and tiny black spots.

I must have been very young when my grandfather Jacinto died.

After that, I only remember the self-portrait and all the photographs he took.

I enjoyed it specially when grandmother Laura showed them to me, commenting: your uncle Luiz, when he was young; your mother as a baby sitting on my lap in the garden; here she was older, with some friends who came to spend the afternoon playing, and some pensionists from grandmother´s School who came to spend the Summer, like Berta, Irene and Isaura, three sisters from São Tome and Principe.

The farm, the grape harvest, the sugar-cane harvest and the garden. I would comment: how much has the palm tree grown! There was a strawberry guava tree; lots of mango trees, a whole hillock of them, a vibrant red hibiscus and another one with hanging flowers, of fringed petals1; an apple-guava tree; a tree which grew pink flowers2 that I loved to put in my mouth, they tasted like silk paper...

A custard-apple tree as big as a house; moon-flowers3 in the shade in the path to the hayloft, attracting the night-butterflies4 in the evening; a chinese privet near the wall; myoporums which gave protection from the southwest wind; the fig tree — long white figs with honey in their tips — near the pigeonry, the carob tree near the entrance gate, black surinam cherries, a jacaranda, jasmine, flamevines5 covering the trellis which filled themselves with orange-coloured flowers at Christmas time. And the camphor tree! It was huge, and Uncle Luiz had planted it.

To take a bath we would come down the rocks and the gravel path. We would avoid the pricklypears6. In the path there was wild fennel, rock wallflowers, white scents. Down below, we would cross the banana trees and then arrive at the beach, so wide, so broad. It was beautiful, because it was empty!

At home, in days of rough sea, we would hear the sound of the ocean draggling through the pebbles. It rolled them day and night, for years and centuries, until pieces of basalt turned smooth and soft. A pebble is a masterpiece!

Who has never walked barefoot on the pebbles, now jumping, now balancing oneself on the bigger ones?

Today, like a room choked up by furniture, the Formosa Beach is full of buildings.

I thank you, grandfather, for leaving your gaze on the beauty of this place.
And I thank the sky and the earth for having started to breathe here.
LC
2006


1 hibiscus skisopetalus / 2 lagerestroemia indica / 3 mirabilis nyctago / 4 sphinge / 5 pyrostegia venusta / 6 opuntia tuna
A casa da Praia Formosa, os arredores, a fazenda e a Casa Pequena.<br><em>The house in Formosa Beach, the surroundings, the farm and the Little House.</em> A casa e o muro da propriedade, altitude 50 metros. Atrás, o Pico de São Martinho.
<br><em>The house and the property’s wall, 50 metres altitude. Behind, the São Martinho summit.</em> A praia, a Ponta da Cruz e o cais.
<br><em>The beach, the Ponta da Cruz and the quay.</em> Os Avós na entrada da Quinta.
<br><em>My grandparents at the farm’s entrance.</em> O Tio Luiz, Luiz Gonzaga Moniz de Bettencourt, acabou de descer a entrada de corsa (trenó).
<br><em>Uncle Luiz, Luiz Gonzaga Moniz de Bettencourt, has just got down the entrance on the sled.</em> No jardim, a Avó ao centro, atrás o Avô e, de pé, o Tio Luiz.
<br><em>In the garden. Grandmother in the centre, behind grandfather and uncle Luiz standing.</em> A minha Mãe, Ana L.T. Moniz de Bettencourt, ao colo da sua mãe, a Avó Laura. Nasceu em 1907.
<br><em>My mother, Ana L. T. Moniz de Bettencourt, on grandmother Laura’s lap, was born in 1907.</em> A palmeira, pequena ainda.
<br><em>The palm tree, still tiny.</em> O Tio Luiz. Em cima: a estrada Monumental e o Pico da Ponta da Cruz, sítio do Amparo.
<br><em>Uncle Luiz. Above: the Monumental road and the Ponta da Cruz Peak, place of the Amparo.</em> Pela manhã no jardim.
<br><em>In the morning in the garden.</em> Em frente ao xadrez.
<br><em>In front of the trellis.</em> Debaixo do alpendre. Janela/porta do gabinete e porta de entrada da casa. O quarto de jantar também dava para o alpendre e no Verão ou em dia de anos o almoço era sempre cá fora.
<br><em>Underneath the porch. Window/door to the office and the house’s entrance door. The dinning room would also lead to the porch. In the Summer, or in birthdays, lunch was allways outside.</em> O vasto galinheiro.
<br><em>The wide hen house.</em> À porta do lagar, limite Leste da Quinta.
<br><em>In front of the wine press, in the eastern boundary of the farm.</em>
A pipa deve ter vindo até aqui para a fotografia!
<br><em>The cask must have come here for the photo!</em> A apanha da cana-de-açúcar.
<br><em>Sugar cane harvest.</em> Fazendo os molhos que vão ser transportados para o engenho.
<br><em>Preparing the sheafs which will be transported to the mill.</em> O cãozinho adorado chamava-se Maitinha.<br><em>The lovely puppy was called Maitinha.</em> Fundo de bambus. O Avô Jacinto oferecera à Mãe uma mini-máquina de costura que ainda chegou às minhas mãos, assim como uma boneca com cabeça de porcelana.
<br><em>Bamboo background. Grandfather Jacinto offered my mother a tiny sewing machine, which still got into my power, as well as a doll with a porcelain head.</em> A menina ao centro tem um colar de flores.
<br><em>The girl in the middle has a flower necklace.</em> Uma tarde. Ia-se à cidade em carro de bois ou de carruagem.
<br><em>An afternoon. To go to the city would be in a bull cart or a carriage.</em> Gosto tanto desta fotografia. O chão com folhas caídas, sem relvas, o muro, fundo do palco, coberto de hera. Toda a vegetação envolvendo a personagem.
<br><em>I love this photo so much. The ground with fallen leaves, no grass, the wall, an ivy-covered background. All that vegetation surrounding the sitter.</em> Ainda me lembro de ver dar à manivela para o automóvel arrancar. Atrás do muro uma alfarrobeira.
<br><em>I still remember people cranking so that the car would start. A carob tree behind the wall</em> Visita do Espírito Santo. Vindos da Igraja de São Martinho. Bandeira, pendão, coroa, cestinhos de vimes (verga) com flores. E músicos.
          
            
<br><em>Visit of the Espírito Santo. Arriving from São Martinho Church. Flag, banner, crown, osler twig baskets with flower in it. And musicians.</em> Exactamente o mesmo grupo fotografado na estrada, na entrada e ainda no jardim. No mesmo dia trocaram-se os lugares, as cadeiras andaram para cima e para baixo, para dentro e para fora.
<br><em>The same exact group photographed on the road, on the entrance and also in the garden. In the same day they changed places, moving the chairs up and down, in and out.</em> Exactamente o mesmo grupo fotografado na estrada, na entrada e ainda no jardim. No mesmo dia trocaram-se os lugares, as cadeiras andaram para cima e para baixo, para dentro e para fora.
<br><em>The same exact group photographed on the road, on the entrance and also in the garden. In the same day they changed places, moving the chairs up and down, in and out.</em> Exactamente o mesmo grupo fotografado na estrada, na entrada e ainda no jardim. No mesmo dia trocaram-se os lugares, as cadeiras andaram para cima e para baixo, para dentro e para fora.
<br><em>The same exactgroup photographed on the road, on the entrance and also in the garden. In the same day they changed places, moving the chairs up and down, in and out.</em> A lapinha em escada/altar. Ao fundo «alegracampo» (trepadeira indígena, semele androgyna), fruta e «cabrinhas» — um feto que cresce por entre os muros de pedra, o rizoma faz lembrar a pata de uma cabra.
<br><em>The crib on the stairs/altar. On the background an “alegracampo” (indigenous creeper, semele androgyna), fruit and “cabrinhas” — a fern that grows between stone walls. The rootstock looks like a goat’s foot.</em>
A casa da Praia Formosa, os arredores, a fazenda e a Casa Pequena.
The house in Formosa Beach, the surroundings, the farm and the Little House.

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