Lucília Monteiro . Ex-Voto . Fotografia
Textos de: Paulo Cunha e Silva, Maria do Carmo Serén,
Olívia Marques da Silva e Lucília Monteiro.
Edição bilingue: português-inglês
ISBN: 978-989-20-4831-4
Edição: 2014


Do corpo fragmentado
(a partir de um depoimento de Paulo Cunha e Silva)

A questão da representação do corpo sempre apaixonou quem se interessa pela História de Arte. Desde a antiguidade à arte clássica, grega ou romana, é dada muitas vezes uma atenção especial ao fragmento do corpo, porque desenhar o fragmento é uma aprendizagem sobre a representação do todo. O todo é mais que a soma das partes. Mesmo as representações religiosas, como os ex-votos, são representações do ser.
Precisamos de fragmentar o corpo para o entendermos. A história da medicina foi construída a partir dessa fragmentação e muitas especializações médicas têm a mesma configuração: separamos não só as zonas, os territórios morfológicos, (como a cabeça ou os membros), como separamos também os órgãos, (seja o aparelho digestivo, o aparelho pulmonar ou outro). Há médicos especialistas para cada aparelho, porque cada aparelho tem a sua expressividade. O corpo comanda. Vive neste equilíbrio, entre as potencialidade totais do fragmento e a circunstância do corpo todo ser um só.
O corpo tem uma tal intensidade que qualquer fragmento transporta o corpo todo. Isto é a teoria dos fractais.
A teoria dos fractais diz-nos que qualquer estrutura mais pequena, colhida de uma estrutura maior, tem uma organização fractal capaz de reproduzir a morfologia do todo. Isto é particularmente evidente no corpo. Porquê? Um fragmento de corpo remete não só para o corpo todo, como para a circunstância de que ao todo falta aquele pedaço.
No meu livro “O Lugar do Corpo” remeto para o filme Blue Velvet, de David Lynch, em que há um plano picado que vem até à relva. Subitamente, a câmara aproxima-se de um nível cada vez mais íntimo. Uma orelha é focada e todo o filme se constrói a partir dessa orelha, que fará falta a um corpo. A quem falta essa orelha? Não é a orelha que nos evoca a atenção, é o corpo que está sem orelha.
Um fragmento de corpo tem essa capacidade de compulsar e de convocar o corpo todo. Esse fragmento possui a capacidade convocatória de todo o corpo. É esse o princípio do “ex-voto”. Apesar da patologia se associar àquilo, cada ex-voto representa também o corpo todo e representa a possibilidade de salvação através do corpo todo.
Os ex-votos são elementos de conexão entre o corpo, a cura e o além. A dimensão religiosa do corpo é curiosa, porque os ex-votos reproduzem a morfologia do corpo. O corpo está presente, é um objeto de mediação e de ligação, de articulação e vinculação com a possibilidade de a doença ser encarcerada em cada um dos ex-votos. Se for colocada num espaço milagroso ou milagreiro, a doença tem essa capacidade de ser expurgada. Se sofro do estômago, levo para o espaço religioso uma representação do meu estômago em cera, porque é um material que coabita com os outros materiais do espaço religioso como as velas. Essa coabitação permite a relação e a libertação. Ao transportar esse fragmento do corpo, que representa a patologia, o meu sofrimento chega a um espaço em que é exorcizado. Há uma certa captura, uma extração do sofrimento e da doença.
No caso dos ex-votos fotográficos a dimensão das fotografias é social, há a representação, a vinculação à pessoa e à sua identidade. Há aqui a tentativa de resolver o problema: através de uma vinculação entre o divino e a pessoa, através de uma relação muito mais abstrata entre um fragmento do corpo e o divino.
Esta interpretação tem duas polaridades. Uma remete para a figura. Pode ser só o retrato, a figura de natureza mais social. A outra é o aspeto antropológico, porque é um lado em que os corpos são colocados em contextos religiosos, em ‘máquinas de salvação’, tal como são as igrejas.
A igreja é uma câmara de salvação. Esta tensão, entre a representação real e a representação abstrata diz muito sobre a relação um pouco paradoxal que a igreja e a religião estabelecem com o corpo. Este trabalho traduz a pulsão entre a possibilidade do corpo, na religião, ser um corpo com face, ou de ser um corpo com órgãos ou sem órgãos, para usar a expressão de Gilles Deleuze e Felix Guatari.
O olhar para estes objectos provoca em si uma revolução, um sobressalto, uma descontinuidade. Ao fotografar e enquadrar esses objetos, estes ex-votos, temos uma representação quase xamânica no curto-circuito religioso. Eles pretendem estabelecer a possibilidade de cura, a possibilidade religiosa. A própria organização dos santos é também uma organização vinculada ao corpo. Há santos especialistas, como há médicos especialistas.
Este trabalho é documental, artístico e antropológico. A fotografia vive nesse trânsito entre o documental e o artístico.  
Um documento pode ser antropológico, jornalístico, social, político. Hoje em dia, fotografias de natureza muito política podem ser expostas em museus: a mensagem artística tem uma carga política muito evidente. Este trabalho é mais artístico. A forma como evidencia o clarão desses objectos sobre o fundo negro remete para um olhar sobre objectos que não são objectos artísticos ,os ex-votos não são artísticos, mas um olhar sobre eles pode ser já artístico. O olhar do fotógrafo é sempre um olhar que contamina e dá sentido aos objectos. Esta fotografia tem dimensão  antropológico vinculado com o seu tempo.

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