Paulo Brighenti
is this desire?
20.12.2008 > 28.03.2009



O presente da arte

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos sem extensão, não existe; temos de imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro ã passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da nossa consciência.

Jorge Luís Borges




A pintura de Paulo Brighenti detém uma capacidade singular de se ancorar num tempo próprio. Dir-se-ia que esse seria o tempo e o espaço conquistados pela autonomia moderna do objecto artístico. Contudo, esse não é, em rigor, o caso, embora daí advenha parte do seu lastro idiossincrático. O medo como estas pinturas reiteradamente nos convocam para um universo próprio, fantasmático e crepuscular, acaba por se sobrepor à sua igualmente poderosa teia de revelações, ocultações e sedimentações da matéria pictórica na superfície da representação. O conteúdo encontra na forma, então, uma qualidade supletiva para a sua densificação.

Oriundas dos espaços recônditos de memórias do passado, onde figuras seminais da representação na história da arte parecem ter sido recuperadas por processos similares à constituição dos fósseis, convivem no conjunto de obras agora apresentadas elementos que se diriam intemporais, como apontamentos botânicos e esgares do mundo natural: impressionante aquele planeta - a lua? - que, na excelência da factura, condensa todo o mistério de uma natureza insondável todo o tempo que se esconde no seu brilho concomitantemente aquoso e baço. Porque nas pinturas e nos desenhos de Paulo Brighenti o real dilui-se na percepção imediata da pintura enquanto metáfora do indiscernível. Não são aquelas graças, nem as cabeças tombadas, nem o herói mítico que reclamam sentido, é o sentido da pintura enquanto presente que desvela a sua imponência. É a reinterpretação de um real não vivido - a fonte maior de referência deste artista são reproduções fotográficas que se vão dispondo de forma mais ou menos aleatória no seu estúdio.

O trânsito acaba por fluir, deste modo, de um exercício de rememoração uma espécie de anamnese, para a realidade da pintura, para o seu exercício enquanto portador de sentido.

É aqui que ressoam com acuidade as palavras de Borges. O presente destes trabalhos é inapreensível. Se ficássemos pelo passado, pelas referências que o artista habilmente convoca, o espectador sentir-se-ia possivelmente mais apaziguado. Parafraseando Borges, na obra de Pauio Brighenti, o conhecimento daquilo que fomos e daquilo que possamos vir a ser, não nos revela aquilo que somos.

Mas não será esse um dos fins últimos da arte? Dificilmente, parece-me pois mais do que apontar caminhos e teorias plausíveis território da ciência, construir modelos de relação com o mundo e as suas inquietações metafísicas, território da filosofia, a arte detém esse extraordinário poder de questionar sem responder e assim dar corpo a uma realidade nova ou, paradoxalmente, criar a partir da negação, da abstenção.

Porque a percepção se sobrepõe - evita, até - a explicação O caso mais agudo, nesta exposição, dessa opacidade intrigante, é a obra que este artista criou especificamente para a Porta 33. Numa das paredes do espaço expositivo um enorme desenho a carvão impõe-se em extensão ao espectador. Sem título: também aqui o espaço e o tempo são remetidos para um plano de indefinição programática. As manchas negras que ao perto quase se autonomizam num divertimento abstracto, configuram a imagem de uma passagem agreste e solitária, onde um vulcão em plena actividade sobressai enquanto elemento de acção referencial. Imerso neste contexto, o observador não tem elementos anedóticos a que se ater. A acção deixa de se particularizar na representação para se distender na realidade do processo. Como se ao tempo se retirasse a sequencialidade e ao espaço a gravidade. A verdade é, então, a arte. E esta arte é, por sua vez, o presente.

Miguel von Hafe Pérez

Dezembro 2008





Miguel von Hafe Pérez: biografia (resumo)

Miguel von Hafe Pérez nasceu no Porto em 1967. onde concluiu a Licenciatura em História de Arte na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Entre 1988 e 1995 colaborou com a Fundação de Serralves coordenando os serviços educativos.

Critico de arte, docente universitário e comissário de exposições, foi responsável pela área de Artes Plásticas e Arquitectura da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura. Entre 2003 e 2005 foi comissário convidado no Centre d'Art Santa Mónica em Barcelona. Actualmente é responsável peio projecto www.anamnese.pt da Fundação Ilídio Pinho, onde integra o Conselho das Artes que está a constituir uma colecção de arte contemporânea portuguesa. Autor do livro Propostas da Arte Portuguesa Posição 2007 (Fundação de Serralves/Público, 2007) é Membro do Conselho Editorial da Universidade do Porto.

Na Porta 33. em 2007, Miguel von Hafe Pérez participou na conversa com João Fernandes e Adriano Pedrosa aquando da expossção Drawing is a verb da Colecção Madeira Corporate Services.

Art's Present

"Isn't it extraordinary to think that from the three times in which we divide time - the past the present and the future - the most difficult and most unconceivable one should be the present? The present is as unintelligible as a point, because, if we imagine it without an extension, it doesn't exist we have to imagine that the apparent present would become a little of the past and a little of the future Thus, we feel the passage of time When I speak of the passage of time I speak of something that all of us feel However, if I talk of the present I will be talking of an abstract entity The present is not an immediate fact of our conscience."

Jorge Luis Borges




Paulo Brighenti's painting detains a singular capacity of being anchored in a particular time. You would say that it should be the time and the space conquered by the modern autonomy of the artist's object However, if we consider it rigorously, this is not the case nevertheless this may be the origin of its idiosyncratic ballast. The way these paintings repeatedly convoke us to a particular universe, apparitional and crepuscular ends up with superposing its equally powerful net of revelations occultations and sedimentations of the pictorial material on the surface of representation So content finds in form a suppletive quality for its densification.

Coming from the concealed spaces of memories of the past, where the original images of representation in art history seem to have been recovered through similar processes as in the formation of fossils, elements considered timeless cohabit in the series of the works now presented Like botanical sketches and grimaces of the natural world impressive that planet - the moon'' that, in its excellence concentrates all the mystery of abysmal nature all the time that is hidden in its concomitantly watery and dull shine. Because in Paulo Brighenti's paintings and drawings reality gets diluted in the immediate perception of painting as a metaphor for the imperceptible It's not those Three Graces, or those fallen heads, nor the mythical hero that claim sense: it's the understanding of painting as the present that uncovers its magnificence It's the reinterpretation of a reality not experienced The major fonts of reference of this artist are photographic reproductions arranged more or less randomly, throughout his studio.

Therefore, traffic continues to flow from an exercise of memorization, a kind of anamnesis for the reality of painting, for exercising it while it functions as a conveyer of sense.

It's here that Gorges' words sound with acuity The present of these works is inconceivable If we stay with the past, because of the references cleverly invocated by the artist, the spectator would probably feel more appeased Paraphrasing Borges in Paulo Brighenti's oeuvre the knowledge of what we were and of what v/e can become does not reveal what we are.

But shouldn't this be one of art's ultimate aims7 Hardly It seems to me. because more than pointing out plausible ways and theories - science's territories constructing models of relation with the world and its metaphysical angst - philosophy's territory, art detains this extraordinary power of questioning without answering, and like that embodies a new reality or paradoxically creates one out from negation, from abstention.

Because perception overlays - avoids, almost- an explanation the most obvious case of this intriguing opacity in this exhibition is the work that the artist created specifically for the gallery Porta 33. On one of the walls of the exhibiting space a huge charcoal drawing imposes itself on the spectator. Untitled here as well space and time are sent to a plan of programmatic indefinition The black stains which from a closer perspective seem to be almost autonomized in an abstract amusement, put together the image of a harsh and solitary landscape where a volcano in full activity stands out as an element of referential action Immersed in this context the observer has no anecdotal elements he can cling to. Action is no longer particular to representation, expanding into the reality of the process. It's as if you would take away from time its sequentially and from space its gravity The truth is, thus, the art. And this art is. on its turn, the present.

Miguel von Hafe Perez
Dezembro 2008




Miguel von Hafe Perez: biography
Miguel von Hafe Perez was born in Oporto in 1967. where he finished his studies in Art History at Oporto University. Between 1988 and 1995 he worked with Serralves Foundation, coordinating the Educational Department of their museum.

Art critique, university lecturer and curator of exhibitions, he is. actually, responsible for the Project www.anamnese.pt at the llídio Pinho Foundation, where he is part of the Arts Council responsible for a collection of Portuguese contemporary art. Author of the book Propostas da Arte Portuguesa. Posição 2007 [Proposals of Portuguese Art. Position 2007.) (Serralves Foundation. Publico. 2C07). he is also member of the Editorial Council of Oporto University.

At Porta 33 Miguel von Hafe Perez participated last year in the talks with João Fernandes and Adriano Pedrosa on the occasion of the show Drawing is a verb of the Madeira Corporate Services Collection.

Translation to English, Alda Galterer, 2009

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