PIRES VIEIRA    SALA DE PEQUENOS ARQUIVOS    30.06.2002 > 30.08.2002
<em>Primeiro arquivo</em> (Instalação), 2000-2001<br> madeira, vidro, acrílico e óleo<br>
	320x280x150cm; 2 unidades Vista da exposição de Pires Vieira, <em>Sala dos pequenos arquivos</em> Vista da exposição de Pires Vieira, <em>Sala dos pequenos arquivos</em> <em>Terceito arquivo</em>, 2001<br>Madeira, vidro, acrílico e óleo<br> 150x65x60cm <em>Nono arquivo</em>, 2001<br>Madeira, vidro, acrílico e óleo<br> 150x150x140cm <em>Sétimo arquivo</em>, 2001.<br>Madeira, vidro, acrílico e óleo<br> 150x150x140cm <em>Décimo arquivo</em>, 2001<br>Madeira, vidro, acrílico e óleo<br> 150x80x80cm
Primeiro arquivo (Instalação), 2000-2001
madeira,vidro, acrílico e óleo
320x280x150cm; 2 unidades
A Porta 33 inaugura hoje, dia 30 de Junho de 2001, às 18 horas, e com a presença do artista, uma exposição de Pires Vieira, intitulada "Sala dos pequenos arquivos". A exposição estará patente ao público de terça a sábado, das 15 às 20 horas, até 30 de Agosto. A inauguração será acompanhada de uma visita guiada por Miguel Wandschneider.

Duas instalações, realizadas este ano e estreitamente ligadas entre si, compõem a exposição: a que lhe dá o título e outra intitulada "Da fragmentação do olhar". No cerne destas instalações estão duas questões com que o artista vem lidando desde 1994: a representação do desejo e a filtragem deste pela memória. Por um lado, a noção de memória é enfatizada pela figura do arquivo. Por outro, as tensões e a violência associadas ao desejo, que arrastavam consigo o tema da morte, desvanecem-se pela desdramatização ao nível da figuração, pela remissão para um passado supostamente encerrado através da ideia de arquivamento e pela introdução da cor, que nos afasta do negrume de trabalhos anteriores.

Desde a série "Aproximação a um inventário dos desejos reprimidos", de 1994, e também nas instalações agora mostradas, o trabalho de Pires Vieira articula-se em torno de uma lógica narrativa auto-referencial, mas aberta às projecções do espectador, a partir da qual se forma uma rede de significados. Deste modo, o artista distanciou-se da sua prática pictórica dos anos 70, centrada na desconstrução analítica dos elementos constituintes da pintura (como o suporte e a cor), alheia a significados exteriores às questões internas da pintura.

Do ponto de vista formal, as duas instalações agora apresentadas retomam um princípio de inventariação de formas elementares conotadas com o corpo humano, assim como a construção de um sistema de variações a partir dessas formas, iniciados com a série "Aproximação a um inventário dos desejos reprimidos" e prosseguidos nas séries "Mostruários", de 1995, e "Vestiários", de 1996, em que esta exposição se filia directamente. O princípio de inventariação e o sistema de variações reiteram, mais uma vez, o carácter obsessional subjacente aos trabalhos. De resto, a serialidade é uma característica do trabalho de Pires Vieira desde o final dos anos 60.

Como tem sido habitual nos últimos anos, em "Da fragmentação do olhar" e "Sala dos pequenos arquivos", o artista situa o seu trabalho (neste caso, de pintura) num regime de instalação, em que a inteligibilidade das partes depende da configuração de uma totalidade, não necessariamente fechada, que se adivinha em processo de construção — aqui identificada com a figura impessoal do arquivo e já não com a do sujeito (do desejo e da memória).
Pires Vieira,<em>Sem título</em>, 1970<br> Esmalte celulosa sobre madeira <br>
	120x150cm (cada elemento)<br>
	Colecção Museu do Chiado Pires Vieira, <em>Des (construções), 1974</em><br>
	Galeria Quadrante<br>Colecção Museu de Serralves Pires Vieira, <em>Alinhamentos</em>, 1987<br>
	Acrílico e óleo sobre tela Pires Vieira, <em>Sem título</em>, 1982<br>
	Acrílico sobre tela<br>185x155cm<br> Colecção Fundação Calouste Gulbenkian Pires Vieira, <em>Aproximação a um inventário dos desejos reprimidos</em>, 1994<br> Galeria Graça Fonseca Pires Vieira, <em>A casa dos suaves odores</em>, 1998<br>
    Madeira, cera, vidro, carvão e sanguinea sobre papel Pires Vieira, <em>Da singularidade da dôr</em>, 1999 / 2000<br>
    Carvão e sanguínea sobre papel<br> 150x165cm Pires Vieira, <em>Da fragmentação do olhar</em>, 2001<br> 
	Primeiro arquivo<br> 130x67x40cm
Pires Vieira, Sem título,1970
Esmalte celulosa sobre madeira
120x150cm (cada elemento)
Colecção Museu do Chiado

Acerca do trabalho de Pires Vieira

Influenciado pelo minimalismo americano da década de 60, o trabalho de Pires Vieira cedo envereda até meados de 76 por um caminho que persegue uma via analítica dos constituintes da prática da pintura, bem mais de vertente europeia, e bastante mais próxima duma análise estruturalista que percorria o pensamento teórico das várias áreas das ciências humanas, nesse período.

Essa via analítica da prática pictórica, que se evidencia inicialmente pela análise do suporte, envereda seguidamente para a problemática da côr, que termina se assim se poderá dizer, nas telas monocromáticas de saturação máxima dos seus pigmentos, bem evidentes nas pinturas de 1976.

A voluntária ausência de produção entre este último ano e 1982, ano em que retoma para logo finalizar, os trabalhos analíticos deixados "em suspenso" na década anterior, vai dar seguimento a toda uma produção que se desenvolve por séries fechadas, mas de fácil percepção do encadeamento que estabelecem entre elas, nas quais se introduzem agora, num acompanhamento oficinal originado nas experiências analíticas da côr, componentes de ordem narrativa e até memorial (vs. "Regresso a Sefard").

É a vertente narrativa que ao impôr o seu discurso, anula por exaustão, qual companheiro de viagem já gasto pelo tempo, a componente pictórica, impondo uma linguagem sintética e minimalista, com valores narrativos fortes e auto-referenciais. (vs. "Aproximação a um Inventário dos Desejos Reprimidos").

O trabalho actual do autor, que preserva a componente serial nas exposições que vem apresentando, privilegia a montagem / instalação, vindo a introduzir recentemente nalgumas obras, a imagem em movimento (vs. Video), entendida esta não como um objecto acabado com uma autonomia própria e total, mas integrada em objectos/instalações que a recebem na perspectiva da sua funcionalidade, pela acentuação dum sentido ou dum alargamento de linguagem.

É pela componente narrativa e auto-referencial, mas também pelas várias, múltiplas e subtis pontes que estabelece com a arte dos últimos 50 anos, que valerá observar com alguma atenção o trabalho que vem sendo desenvolvido e algumas das suas evoluções recentes.

About the work of Pires Vieira

The work of Pires Vieira, influenced by nineteen-sixties American minimalism, takes an early path, until the middle of 1976, that follows an analytical course of the constituent elements of the practice of painting, which is much more European in origin, and somewhat closer to a structuralist analysis that ran through the theoretical thinking of the several areas of human sciences during this period.

This analytical approach to the practice of painting, which is initially shown through the analysis of the support, is then channelled towards the issue of the colour, then ending, so to speak, in the monochrome canvases with a maximum saturation of pigments, as can clearly be seen in the paintings from 1976.

His voluntary lack of production between that year and 1982, the year in which he takes up once again and immediately finishes the works left "suspended" in the previous decade, will provide the continuation of a great deal of production developed in series which are closed but which possess an easily understood chain linking them, and which now contain a workshop-like accompaniment originated in the analytical experiences into colour, narrative and even memorial components (see "Return to Sefard").

It is the narrative element that, in imposing its discourse, annuls the pictorial component like a travelling companion worn out by time, establishing a synthetic and minimalist language with strong and self-referring narrative values (see "Approximation to an Inventory of Repressed Desires").

The author’s current work, which maintains the element of the series in the exhibitions he has been presenting, is particularly in the field of montage/installation, and he has recently introduced moving images (see "Video") into some works, understood not as a finished object with a total autonomy of its own, but integrated within objects/installations that receive it in its functional aspect, through the stressing of a meaning or of a widening of language.

It is through the narrative and self-referring component, but also through the several, multiple and subtle bridges which it establishes with the art of the last fifty years, that it will be worth carefully observing the work that he has been producing and some of its recent developments.

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