A MAIS ALTA MONTANHA
António Mega Ferreira

 

Foi num fim de tarde de Outono, em Lisboa, que Ilda David’ me deu a ver a maior parte destas Tábuas de Pedra, que hoje se apresentam, todas, ao olhar dos visitantes da Porta 33. Era uma tarde quente, quase noite, e sabe quem vive em Lisboa como uma certa sensibilidade atmosférica, que Bernardo Soares tão bem anotou, nos enlaça e entorpece,  quando a cidade se põe a ofegar de calor. No Outono, então, como a estação já devia ser de outros rigores, há uma espécie de opressão física que nos atira para fora do tempo, e talvez isso nos encoraje a mais depressa nos exilarmos das circunstâncias exteriores. Não sei; pode ser isso ou outra coisa qualquer.
Sei que, à medida que Ilda David’ me ia colocando diante dos olhos as peças de uma narrativa ainda sem referentes, os ruídos dissonantes da vida lá fora, o chiar de pneus e os klaxons dos automóveis – já não há barulho de pregões, nem cantos, nem voz de zaragatas na minha cidade, só o rosnar impaciente dos motores em aceleração - , a verdade é que tudo isso, que nos chegava pelas janelas abertas do atelier, foi recuando para um plano longínquo, não apenas no espaço, mas também no tempo, como se, de repente, os sons da cidade que é se estivessem a transformar na memória em negativo do que a cidade já foi.
As imagens que, uma após outra, se me desocultavam tinham o condão de me projectar não para fora, mas para diante, como se fossem sinais de uma aventura inquietante, que deveria transcender a própria realidade de existirmos ali, naquele tempo, apontando-nos o caminho para qualquer coisa que está para lá daquilo que imediatamente vemos e sentimos. Toda a busca é uma aventura no futuro, mesmo quando se alimenta das reminiscências, mais ou menos ficcionadas, do passado, sabemo-lo desde Nietzsche.
E, de facto, também havia, neste exercício de ver o que as telas de Ilda David’ mostravam, um eco de um qualquer episódio passado que se me alojara na memória: sem serem ostensivas representações de um qualquer sucesso da minha vida, eram pela menos difusas luminescências que me remetiam para outra coisa qualquer, e que, em mim, pobre homem feito de palavras e de papel, deveria ser um livro.
Um a um, os elementos das diversas telas foram reencenados, a partir desse dia, na minha memória desse fim de tarde no atelier da Ilda; e foi só quando fui capaz de reconstituir o que havia de permanente em tudo o que me fora dado a ver que comecei, verdadeiramente, a ver. Esta sucessão de montes que rematam em picos bem marcados acendera a mecha de uma recordação.  Como um pesadelo obsessivo do qual não conseguimos acordar, era o próprio desafio físico e moral que representa a ascensão, real ou simbólica, ao cume mais alto da mais alta montanha, que se me instalara na vigília de todos os sonhos, como um enigma que ficou por resolver. A montanha, as montanhas, que são, mais que espaço de representação de uma tragicomédia humana, o espaço simbólico da mais alta exigência intelectual e ética, tornaram-se uma imagem da minha própria busca de uma razão de ser para aquele sentimento difuso de falta.
Num dos belíssimos textos com que contribui para o catálogo desta exposição, o poeta José Tolentino de Mendonça diz-nos que estas tábuas de pedra “contêm o testemunho anterior às tábuas da lei. Reflectem o ponto mais recôndito, a falta.” Estamos de acordo quanto ao que elas reflectem; mas eu tendo a achar que elas nos falam do que nos falta, não antes, mas depois de termos perdido as tábuas da lei, isto é, e em sentido metafórico, depois de termos perdido o centro – todos os centros – que nos definiam um ponto de equilíbrio com o mundo (e da imagem do mundo em nós), fosse esse equilíbrio o que era dado pela certeza imanente da Fé, fosse o que nos vinha de um outro tipo de crença – no Homem e no progresso. Esta falta é, portanto, talvez pós-apocalíptica: no mundo em que vivemos, já não nos assusta a perspectiva do Apocalipse, porque o apocalipse, ou a sua pálida, banal, prosaica encenação é um dado corrente do nosso quotidiano.Somos figuras do Apocalipse, sem darmos por isso; e, por causa disso, tornámo-nos indiferentes ao alto significado metafísico da confrontação final, que devia ser crise e catástrofe, mas também renovação. Deixámos de temer que o mundo acabe; mas, em certo sentido, o mundo já acabou.
Como tantas vezes acontece, cheguei à origem escrevendo o caminho para a origem. E, lá em cima, no alto da montanha que eu começara a escalar naquele fim de tarde de Outono, estava a origem da minha inquietação; era, como não podia deixar de ser, um livro. Um livro inacabado, perturbante, enigmático:  um grito de vida de um condenado à morte. Foi escrito entre 1939 e 1944, em pleno apocalipse humano e militar, e editado depois da morte do seu autor. É descrito como “romance de aventuras  alpinas, não-euclideanas e simbolicamente autênticas”. Chama-se Le mont analogue (O monte análogo) e é da autoria do escritor francês René Daumal.
Começou a escrevê-lo aos 31 anos, após ter sabido que uma longa e profunda tuberculose já não tinha remédio; acabou ele antes de ter acabado de o escrever. Entre a doença e a fuga aos nazis (Daumal era casado com uma judia), compôs alguns capítulos (quatro completos), fragmentos descritivos e programáticos, algumas notas de trabalho. Uma vez terminado, o livro deveria descrever a expedição organizada para tentar encontrar o Monte Análogo. E o que é o Monte Análogo? Escreve Daumal: “Eu acreditava  na existência,  num qualquer lugar do globo, de uma montanha mais alta que o Everest, o que era, do ponto de vista do senso comum, uma coisa absurda.” Mas, uma vez encontrada  essa montanha, o que faria dela o Monte Análogo? Era preciso “que o seu cume fosse inacessível, mas a sua base acessível aos humanos, tal como a Natureza os fez. Essa montanha  deve ser única e deve existir geograficamente. A porta do invisível deve ser visível.”
O livro - ou o que dele foi escrito – narra os primeiros passos da expedição que um grupo de visionários, no qual participa o narrador, empreende, em busca deste cume inacessível  e da sua base acessível aos humanos.  Não vou contar-vos a história, que, para mais, teria que ficar fatalmente incompleta. Espero apenas que um editor a quem a paixão desta busca incessante tenha também tocado se decida, um dia, a publicar em português o romance inacabado de René Daumal.

“A porta do invisível deve ser visível”, escreve Daumal. Mas, para que ela se torne visível, é necessário procurá-la.  A revelação não é da ordem do humano, mas pura discricionariedade do divino. Entre nós, tal como a Natureza nos fez, a descoberta da existência do mistério faz-se em laboriosa busca do lugar onde ele se nos apresenta, “de pé, diante de nós”, como a porta do maravilhoso jardim da infância em Combray  se apresentava a Marcel Proust, quando voltava dos seus passeios com a família. Não é outra coisa o que René Daumal nos diz: que essa alta montanha deve existir algures, mas que ninguém a encontra se não meter pés ao caminho, se não se dispuser a partir, com a convicção,  porventura  absurda, de que esse lugar existe. “O caminho faz-se caminhando”, para citar Antonio Machado.
Ora, estas Tábuas de Pedra resultam de uma expedição, de uma outra espécie de viagem em busca do pico mais alto, empreendida um dia por Ilda David’ e José Tolentino de Mendonça. Só que eu não sabia, quando pela primeira vez vi estas telas, que essa viagem tinha de facto acontecido. E só ao ler os textos do Tolentino é que fiquei a conhecer – sem os reconhecer – os lugares dessa procura: o Pico do Gato, o Pico Grande, o Pico das Torres, o Pico Ruivo. O que começara  por ser o apelo mágico da montanha tornou-se, a partir daí, geografia nomeável, física, palpável, “o amarelo que ressurge nas escarpas/após os nevões”, “túneis, atalhos, águas geladas”, “manchas de líquenes” – “o nome dos lugares onde iremos/ e dos lugares onde não chegaremos.”
À sua maneira, armados apenas com a sua sensibilidade e o seu olhar, os nossos viajantes partiram um dia à procura do seu Monte Análogo e, sem o saberem, cumpriram exactamente o programa que Daumal traçara no seu romance apenas começado, programa que ele nunca chegaria a cumprir. Não posso deixar de pensar que o que se mostra nesta exposição são capítulos não escritos do livro de René Daumal, coisa que em nada perturbaria o escritor, porque a viagem não tem protagonistas nem autoria, a viagem é uma exigência do humano a si próprio, na procura de uma razão última para existirmos: o que é o Ser?
E aí estão, nestas telas deslumbrantes, os mitos todos, os de um Olimpo decaído e de um Éden do qual para sempre fomos exilados, a dizer-nos que é, ainda e sempre, na montanha, na mais alta montanha que nos for dado ver, que mora a razão que não sabemos nomear, o nome que nunca havemos de reconhecer.
Querem um roteiro para esta exposição? Permitam-me então que reproduza este excerto de uma das notas deixadas por René Daumal, que bem poderia figurar como Proposição da sua absurda empresa literária, e que hoje está integrada na versão definitiva deste estranho e incompleto romance, em que um condenado à morte nos deixa o seu grito de esperança, sob a forma de uma alegoria grandiosamente bíblica:

“Foi assim que nasceu o projecto de uma expedição ao Monte Análogo. Agora que já comecei a descrevê-la, é necessário que vos conte o que se seguiu: a forma como ficou comprovada a existência sobre a Terra de um continente  até então desconhecido, no qual existiam  montanhas  muito mais altas que o Himalaia;  as razões por que até então ninguém  tinha dado pela sua existência;  de que maneira  lá chegámos;  que seres lá encontrámos; de como uma outra expedição,  com objectivos  bem diferentes,  esteve em riscos de soçobrar nesse continente; de que forma começámos, por assim dizer, a firmar raízes nesse novo mundo; e como, apesar de tudo isso, a viagem ainda vai no início…
“Lá muito alto, lá muito longe, no céu, acima e para lá dos círculos sucessivos  de picos montanhosos cada vez mais altos, de neves cada vez mais brancas, numa alucinação  que a nossa vista não pode suportar,  invisível por excesso de luminosidade, é que se ergue o mais alto cume do Monte Análogo.  «Aí, no pico mais agudo da mais fina agulha, só sobrevive aquele que preenche todos os espaços. Aí, respirando o ar mais subtil que tudo congela, só subsiste o cristal da última estabilidade. Aí, no meio do fogo celeste em que tudo se consome, apenas resiste a perpétua incandescência. Aí, no centro de tudo o que existe, habita aquele que é capaz de ver a concretização de cada coisa, o seu princípio e o seu fim». É isto que cantam, por estas paragens, os habitantes da montanha. «Tu dizes que é assim, mas se fizer um pouco mais de frio o teu coração transforma-se numa toupeira; se fizer um pouco mais de calor, a tua cabeça fica cheia com uma nuvem de moscas; se tiveres fome, o teu corpo transforma-se num burro insensível  às cacetadas;  se estiveres  fatigado, os teus pés hão-de oferecer-te resistência». Esta é uma outra canção que os habitantes da montanha também cantam, enquanto eu escrevo, enquanto eu procuro encontrar uma maneira de vestir esta história verídica de modo a que ela se torne verosímil.”

Não gostaria que desta transcrição ficasse um equívoco de leitura: o romance de Daumal relata apenas os preparativos e os primeiros momentos da viagem (foi até aí, apenas, que ele conseguiu chegar); mas nada nos impede de seguirmos a sua lição e de procurarmos na mais alta montanha, não o tecto do mundo, como, ávidos de poder, os construtores da Torre de Babel, mas o lugar onde a terra mais se aproxima do céu, o lugar onde, para muitos de nós, o mundo expõe, como uma ferida, a sua mais evidente falha, o que falta para tudo faça sentido.
A Arte é o caminho pelo qual empreendemos a ascensão da montanha, ainda que saibamos que o seu pico mais alto nos será para sempre inacessível.  Ou não? Tal como no romance inacabado de René Daumal, estamos ainda no início da viagem. Quem sabe o que o amanhã nos pode reservar?

Funchal, 17 de Dezembro  de 2005

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