Pico Ruivo

 

Todo o verão amontoei pedras e as dispersei

vigiava nuvens e sombras pelas fajãs
a mesma solidão perigosamente
transcrita naquele cinzento avermelhado
sob as escamas do céu
urzes sobrevivendo  à dura estação
duas ou três cabras, uma tenda

túneis, atalhos, águas geladas
por aí nos conduz a travessia
a folha e a flor pertencem ao vento
um olhar (ainda o meu?) persegue-as  entretido
na grande subida

mais abaixo, quando principiava a vereda
manchas de líquenes cobriam de igual modo
o nome dos lugares onde iremos
e dos lugares onde não chegaremos

 

 

Discussão sobre a actividade geológica em Delfos

 

Deve-se a um oleiro ateniense o seguinte quadro:
em câmara de tecto baixo, a minuciosa dama sentada
um ramo de loureiro numa das mãos
na outra uma taça — desta pende a água dos augúrios
na justaposição  dos espaços
Por isso é um rei invencível e não um jovem assustado
quem junto à mulher consulta o que não se pode prever

Estrabão, o geógrafo, olhou evidentemente  esse vaso
pois com profusa ciência o esclarece: «O segredo do oráculo
é uma gruta oculta na terra.
Por estreita abertura uma respiração sobe.
Sentada no cimo da fenda
a pitonisa inala o vapor da profecia».
Essa era também a opinião de Plínio, Diodoro e Platão

Décadas mais tarde, Plutarco refere
o pouco que se sabe dos aspectos:
o pneuma seria uma forma
equivalente ao perfume imprevisível
emitido como se brotasse de uma fonte

Mas já então o mundo se tornara irregular e vago
filtro algum tornava suportável sua dor
E todos diziam: ou a essência vital se esgotou
ou, quem sabe, o vapor tenha encontrado nova passagem
E, de facto, um viajante da geração seguinte, Pausânias,
relata ter visto, no declive acima do templo
uma fonte de água chamada Kassotis
que mergulhava no subsolo e emergia novamente
mas agora no silêncio de uma câmara vazia

 

 

Ensaião

 

Que dizem os exploradores,
os viajantes, os peregrinos que há muito julgávamos perdidos,
os berberes, os transumantes,
os foragidos
a quantos, como nós, tomam lei da letra e do testamento
não da necessidade  desconhecida
que de instante a instante
se revela

Além, onde eles habitam, há uma língua fantasma
que recolhe aquilo que nenhuma língua
é capaz de dizer:
os fotões gerados pelo embate dos astros
o modo como se move por entre a ortografia o antílope
o amarelo que ressurge nas escarpas
após os nevões

 

 

O taxidermista

 

A forma inconstante,  a aceleração, a temporalidade
a vida esconde-se sob uma folha trémula
mas ao removê-la cuidadosamente
o taxidermista  procura apenas o inanimado
sem perfurações

Do mesmo modo desenha músculos, cavidades,
sistematiza nervuras que sirvam
de guia à estranheza
como se de nada tivessem valido ao corpo
suas quedas, suas perdas, a clandestina
imensidão que se fareja
desesperadamente próxima

O taxidermista executa então o modelo
de arame, madeira, argila,
gesso ou até papel
e quando, por fim, dispõe a pele e a costura
alguma coisa infinita morre às suas mãos

Mesmo assim acrescenta outros elementos
os manuais asseguram que globos ocos pintados
em vez de olhos de vidro
dão ao animal preservado
uma expressão natural

 

 

Endzeit

 

Atrás de ti o caminho luminoso
como se o abismo tivesse uma cabeleira branca

 

 

Tábuas de pedra

 

Aproximaria  as pinturas de Ilda David’ daquilo que Heidegger dizia habitar no núcleo mais íntimo de cada ser: a consciência de uma falta. Falta que não é transgressão,  nem defeito perante qualquer lei ou autoridade, mas carência, abertura que resta por completar,  uma falha como a daquelas formações  geológicas  milenares que despertam  o interminável  fascínio de gente da ciência ou simples viajantes.

Em certos apelos silenciosos de que só nós nos damos conta, em rupturas inesperadas,  na paisagem, nas emoções, no pen- samento, ou quando um não sei quê completamente nos desarma para assim nos ligar (ou religar) àquilo que o visível enun- cia, é a essa falta que nos tornamos expostos.

Estas imagens de Ilda David’ constituem um seu minucioso relato, tomando montanhas e caminhos de montanha, na Ilha da Madeira, como meditada exemplaridade, não como difuso fundo. A vereda da Achada do Teixeira. As encostas de S. Roque do Faial. O dique basáltico  sobre as ribeiras  da Fajã da Nogueira  e do Cidrão. A plataforma  do Ninho da Manta.  O lugar chamado do Homem-em-pé. O Pico do Gato. O Pico Grande. O Pico das Torres. E, pouco depois deste, o Pico Ruivo.

As tábuas de pedra contêm o testemunho anterior às tábuas da lei. Reflectem o ponto mais recôndito, a falta.

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