“Coalescer”. Vem aí uma constelação
Investigadora Ana Mira inicia, no sábado, viagem em torno da dança, do desenho e da filosofia

Por Paula Janus

 

“Coalescer” é "uma constelação" que nasce do encontro entre a dança, o desenho e a filosofia. Coalescer é, pois, nome de "constelação" que se cria com o corpo todo, para o corpo todo. Uma narrativa erigida a partir do afeto, do sentir, do invisível, do pensamento filosófico e da palavra. Coalescer é um corpo inteiro em escuta. É esta a experiência que a investigadora, docente e performer Ana Mira, mãe do projeto, faz entrar pela Porta 33, já no próximo sábado, dia 1 de fevereiro, pelas 18h00, sendo este o primeiro de vários momentos que, entre 2020 e 2021, bimensalmente, terão como palco o centro cultural sediado na Rua do Quebra Costas. Em entrevista, Ana Mira conta-nos do seu anseio por aqui chegar, da viagem imaginada e prometida, que é sua, mas também é nossa, se aceitarmos com ela navegar através do brilho desta obra-constelação, prestes a desaguar na ilha. O conceito, explica, "tem que ver com a reunião dos participantes nas atividades propostas", com a forma como cada um se entrega e se envolve na experiência, através de uma série de exercícios "que vão atravessar o laboratório de dança e filosofia, o atelier de movimento, o atelier de filosofia e as conferências". Coalescer remete para esta comunhão de narrativas, mas recusa-se a fundi-las; o objetivo é que estas se potencializem entre si, mantendo intacto seu próprio filamento. Ana Mira propõe, ainda, alguns exercícios performativos, sendo que desta complexa construção deverão resultar manifestações várias, "mais artísticas ou filosóficas, ou até de linguagem, de relação com a palavra, bem como expressões por meio da dança e do desenho (…) No fundo, convoca-se uma série de áreas para as fazer caminhar lado a lado, potenciando-as mutuamente.", esclarece.
Questionamos se, nesta génese em torno do corpo, do espaço e do tempo, haverá um centro nevrálgico, um ponto de partida para o que (nos) acontece, ao que Ana Mira responde prontamente: "Se houver um centro, será o corpo, porque, com o corpo, vem também o espaço e o tempo. Com o convite da Porta 33, a constelação expande-se ainda mais, ganha outros braços e outras pernas, outros ventos e fôlegos, outros tempos e espaços. Mais pensamento e mais palavra. Novos silêncios, também. A Porta abre-se de frente, para dentro, deste corpo inteiro, põe os olhos e as mãos sobre a linha do infinito que representa Coalescer. Ana Mira entra. Chega e acontece de corpo e alma, é intensa e profusa no arco com que nos envolve, mistura arte e vida como se não as soubesse de outra forma senão assim, misturadas por dentro da linha infinita que vai estendendo devagar até aos lugares mais lugares de cada um. Um por um. Encontra e reúne. Sente e reflete. "Interessa-me pensar nesta constelação, num corpo que possa desfazer-se num desenho, numa dança ou numa escrita. Interessa-me a corporalidade dos participantes, a sensibilidade, a perceção, a consciência do corpo, do movimento, a criação de espaço e tempo."

Isto é o meu corpo: Escuta

Numa sociedade em que o frenesim quotidiano parece fechar todos os caminhos coadunáveis com uma escuta sensível do corpo, é urgente abrir clareiras noutras direções e para outros sentidos. É preciso querer e encontrar. Encontrarmo-nos e encontrar o outro. É preciso irmos por dentro até ao infinito. De peito e cabeça abertos, de corpo inteiro. É preciso "acreditar que existe no corpo e na sua relação com o espaço e o tempo uma potência infinita, e que o trabalho se faz, sempre, através de uma escuta sensível do corpo e da sua relação com o espaço e o tempo, no sentido de nos superarmos e irmos mais longe, para podermos libertar potências de vida que a arte desperta. Na sociedade atual, de facto, não se nutrem as condições necessárias para que um trabalho desta natureza seja possível… Não podemos subtrair-nos a esta realidade, mas podemos criar outros lugares, outros espaços onde isso possa ser possível e coexistir com outras vias que a sociedade toma." É desta forma que a investigadora se posiciona e encontra o seu próprio lugar no mundo, no corpo que é seu e é ponte para o outro, unindo gente, espaço, tempo, afetos, palavras. Deambulando entre o visível o invisível. Eminentemente pensante, eminente sensível, seja através da dança, do movimento, da poesia ou da linha sobre o papel. Estando perto para ir cada vez mais longe. 
Doutorada em Filosofia / Estética pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Ana Mira encontrou nesta disciplina um território complementar essencial ao desenvolvimento do seu trabalho, um território que, na verdade, já lá estava, estivera sempre, desde o momento primeiro em que abriu os braços, nas aulas de ballet, na Voz do Operário, tinha então oito anos de idade. "Na altura, não tinha essa consciência, mas lembro-me da sensação de abrir os braços e sentir o ar, sentir o corpo e o espaço. Claro que não conseguia verbalizar aquilo, mas lembro-me bem da sensação de um corpo que podia ir mais além, que não ficava confinado aos seus limites. Transporto essa sensação muito antiga, de um corpo que se expandia, que se prolongava pelo espaço. E com a escrita, aconteceu a mesma coisa; lembro-me de aprender a ler e de gostar muito dessa aprendizagem. Lembro-me de estar a ler "O meu pé de laranja-lima" e de chorar..." A par da dança, a leitura e a escrita vão rasgando o caminho. O corpo já não é só um corpo que dança, mas é também um corpo que se inclina sobre o papel. Movimento, desenho, pensamento, palavra, emoção. Mente e corpo são um só. A filosofia atravessa todas as frentes, e autores como José Gil, Manuel Rodrigues, Maria Filomena Molder e Ana Godinho são referências enormes e definitivas para Ana Mira. Inspirações fortes e presentes, que dão corpo às conferências, "eixo transversal a todo o projeto". Na sessão de abertura, no próximo sábado, Ana Mira irá traçar uma espécie de "mapa de visualização desta constelação de acontecimentos". A ideia é biografar o projeto, mostrar como este se vai desenvolver e contar sobre as matérias que o atravessam, o que o motiva e o que pode proporcionar às pessoas que nele participem. No fundo, diz, trata-se de "transmitir uma certa necessidade de criar em nós um testemunho daquilo que vamos fazendo, através de documentos sensíveis."


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