Desenhos e histórias para viver
Contra a distância abrimos a Porta



Se a vida fosse um desenho, contar-nos-ia com quantas linhas se cose, pelo princípio, o fio inteiro de uma casa, esta nossa casa. O fio eterno de um corpo, este nosso tão inteiro corpo. Na PORTA33, a vida pode mesmo ser um desenho, como pode ser uma palavra, uma imagem, um movimento, um olhar, um silêncio ou uma linguagem que [nos] fala em todas as línguas. Um corpo que não nos falha quando tudo falta. A pandemia veio impor-nos distâncias, medos e aflições, mas contra o medo e contra o longe, abrimos outras portas para sentir o perto. Estamos aqui para entrar, pelas nossas mãos, pelas mãos dos nossos. Com a Luísa Spínola, a Ana Mira e a Sofia Neuparth, vamos através do desenho, do pensamento, do movimento; com a Catarina Claro, vamos através das histórias contadas, da escuta, da interpretação. São desenhos e histórias para viver, porque desenhar e contar serão sempre formas de ir e de resistir, até ao que não podemos. Quem nos conhece, sabe que não nos sabemos sem resistência, por isso, vamos continuar por aqui, afiando o lápis sobre a pele e o papel, escutando as palavras e os silêncios que hão de vir do sopro profundo da casa. O jardim de inverno dá-nos, todos os dias, e principalmente nestes dias, uma lição de eternidade. Respira e mantém-nos a respirar, dá-nos fundo e superfície, desperta-nos no sentido oposto do vazio e do medo. A mesa do atelier Gatafunhos, projeto conduzido por Luísa Spínola, está mais pequena, redimensionou-se para acolher o computador que, agora, serve de porta para as casas das crianças que frequentam o atelier. Dizem que a tecnologia faz milagres, mas a nossa crença maior reside na linha que não separa o jardim de antes do jardim de agora. Acreditamos no milagre das mãos da Luísa, na magia que lhe vai da cabeça-coração às mãos, na magia que entrega a estes “filhos” que nos nascem sem fim por dentro das linhas que até nós estendem. O jardim entra onde é desejado e urgente, com as plantas, os cágados, os gatos e os corpos sempre prontos da Cecília e do Maurício. E um desenho também é isto; no fim de contas é isto. Um afiamento de lápis e dedos que conseguem tocar-se à distância, e abrir para sempre uma Porta. Esta. Catarina Claro, mediadora cultural e narradora, também faz parte deste corpo. A sua voz entra e convoca-nos para o dentro mais dentro que uma história cava. Os livros ocupam-lhe as duas mãos como ávidas flores nunca arrancadas à terra; e a partir daí, de uma porta à outra, é tudo espanto e entrega. Disse Daniel Faria que "cada um é um lugar para o outro", e nós entendemos que assim é, por isso, não poderíamos não estar aqui, convosco. Até ao fim.

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