Ante-estreia

O Amor que Purifica e Trotoário Azul
Casa-Museu Frederico Freitas - Funchal

FUNCHAL, 7 DE DEZEMBRO DE 2013

NA PORTA 33

Caros Amigos

Lamento muito, mas mesmo muito, não poder estar hoje aí presente.
E parecia tudo tão bem encaminhado !
- o convite principesco da Porta 33,
- o reencontrar amigos queridos,
- o recordar uma época feliz.
( E até apanhar um pouco de calor, porque aqui faz um frio danado ! )

Mas o destino trocou-nos as voltas.
Que chatice !
E porquê ?

( Vou imitar um conhecido humorista brasileiro, pois, tal como ele dizia: )

ESCLARECEREI !

O Museu da Presidência da República fez uma grande exposição sobre a vida e a obra de minha Mãe, Maria Keil, falecida em 2012.
Fartaram-se de trabalhar. Pesquisaram, seleccionaram , recolheram muitas obras dispersas e quase esquecidas, e inauguraram a exposição,
na Cidadela de Cascais, em Julho passado.
Ficou muito bonita.
Não digo isto por ser filho da homenageada, mas porque ficou, de facto, uma bela exposição.
Todas as facetas do muito e variado trabalho que ela fez ( ao longo de quase 80 anos ! ) estão documentadas e bem expostas.
A exposição, que encerrou agora, em Novembro, teve uma recepção tão boa que resolveram levá-la, em itinerância, a vários pontos do País.
E logo o primeiro havia de ser, exactamente, Viseu, que é onde nós vivemos.

É claro que fiquei contente, e por mais do que uma razão.
Querem saber porquê ?

ESCLARECEREI !

Desde há muitos anos que a minha família sonhava com a criação de um museu, onde se mostrasse e preservasse o espólio artístico de Alfredo Keil, músico, pintor, etc.
Nunca se conseguiu.
Entretanto foram desaparecendo outros membros da família, também ligados às artes.
E eu, que ainda por cá ando, fiquei com a responsabilidade às costas : - dar um destino condigno a todas estas memórias.

 

Ora sucede que, há bem poucos meses, falei à Câmara Municipal de Viseu nessa ideia, nesse sonho antigo.
E – surpresa ! – eles disseram que sim senhor, que estavam dispostos a apoiar a criação do museu !
E, sem mais demoras, compraram um edifício para o receber. E esta ?!
O que é ainda mais digno de admiração, porque, vendo bem, a decisão foi tomada numa base de confiança . Na realidade, eles conhecem muito pouco do espólio que lá irá ficar !

É nesta altura, portanto, que a exposição de minha Mãe veio mesmo a calhar !
Estou certo de que impressionará os viseenses e a Câmara Municipal,
e ajudará, finalmente, a concretizar um sonho que tem mais de 100 anos !

Compreendem, assim, que seja importante a minha presença na abertura oficial da exposição, sorrindo imenso para a direita e para a esquerda ...

Mas logo havia de coincidir a data com a da ida ao Funchal !
Ora bolas !
Ainda por cima dois acontecimentos culturais do mesmo tipo !

ESCLARECEREI !

O que faz a Porta 33 ao editar os Fotonovelos dos anos 70 senão preservar a memória de um património artístico de elevado nível ?
É, sem dúvida, uma iniciativa de grande interesse : - cultural, estético, histórico, sociológico...
Deixando ao critério de cada qual apreciar devidamente o mérito estético e cultural da coisa, a mim toca-me muito a parte histórico-sociológica.
E, mais uma vez
ESCLARECEREI !

Os dois anos em que vivi na Madeira, com a família (1969-1970 ), foram anos muito felizes.
Éramos jovens. Ríamos. Confiávamos no futuro. As crianças cresciam saudáveis e contentes.
Ninguém pensava na morte ( e, no entanto, ela não estava longe...)
Tínhamos trabalhos interessantes para fazer ; patrões compreensivos ; ganhávamos o suficiente para viver sem muitas preocupações.
No Funchal o clima era óptimo, e o tempo chegava para tudo :- trabalhar, conviver, brincar.

 

 

Quis a sorte que encontrássemos aqui um grupo de colegas das Belas Artes, madeirenses como a Lourdes Castro e o Marcelo Costa, ou recém-chegados do continente. E rapidamente se estabeleceram relações de amizade e de camaradagem.
Era também a época do Comércio do Funchal – o “jornal cor de rosa” - que foi uma lufada de ar fresco no panorama da informação nacional, tão limitada pela censura.
O convívio estimulante deste grupo contribuía, acho eu, para que surgissem manifestações artísticas e culturais felizes, alegres, luminosas, como as da Lourdes, do René Bértholo, do Marcelo Costa.
( Eu próprio - nessa época e só nessa época - fiz vários “cartoons” para o Comércio do Funchal, e ilustrei o livro “Subsídios para o conhecimento da Ilha da Madeira”, editado em 1970 ).

E surgiram, também, brincadeiras divertidas, espontâneas, fáceis, porque existiam muitas afinidades no sentido de humor do grupo.

Estes “fotonovelos” foram exemplo disso.
De quem é a sua autoria ?
De todos. Cada um deu a sua contribuição.
Cada um fez o seu papel alegremente.
E todos nos divertimos, do princípio ao fim .

Até na apresentação pública, no Hotel Miramar, com toda a “equipa técnica” atrás do lençol-écran, manipulando artesanalmente os projectores de slides e de filmes super 8, os gravadores de som – suando em bica, no meio de uma emaranhado maluco de fios eléctricos !
Uma autêntica festa !

Enfim. Não puxemos demasiado pelas saudades.
É preferível pensar em novos “fotonovelos”.
Que tal “ O AMOR QUE VENCEU A CRISE “ ?
Ou “ O CORAÇÃO É UM OFF-SHORE “ ?

Ou mesmo uma série televisiva ?

 

Obrigado e parabéns, Porta 33.
E abraços para todos do Pitum Keil Amaral