Lourdes Castro
PORTA33 | ARCO`99 — 11.02.1999 — 16.02.1999

LOURDES CASTRO

“sombras projectadas sombras proyectadas ombres portées cast shadows”

As minhas primeiras sombras vieram da serigrafia. Fazia colagens com objectos e querendo realizar obras impressas, coloquei esses mesmos objectos sobre a seda pré-sensibilizada. Obtive assim sombras projectadas (1962). A surpresa do desenho, a simplicidade da forma, do contorno de uma sombra, da sua invisível presença, fascinou-me tanto que ainda hoje para mim é nova. Uma sombra tem para mim mais significado do que simplesmente o objecto descrito. É uma maneira de contemplar as coisas e as pessoas à minha volta. Com a transparência e a translucidez do plexiglas que utilizei muito (a partir de 64) as sombras tornam-se mais ausentes e reprojectam-se. Fiz sair as sombras da sombra, dei-lhes cores, uma vida independente.

L. C. – Paris 1966

"La montreuse d'ombres"


Portuguesa, nascida na Madeira, há já muito tempo — quase desde que começou a pintar — que trocou os pincéis pela sombra; hoje, mostra as suas "assemblages-collages" de objectos pintados a alumínio (de 1961-1963), as suas primeiras sombras projectadas de objectos, os seus contornos de pessoas, inicialmente sobre tela e, depois, em plexiglas, cuja matéria transparente e translúcida encerra a existência de uma presença ausente. Os seus recentes desenhos, de traço seguro, delimitam a geografia de um corpo, de um gesto, de um objecto, de um momento desmaterializado, decantados do seu conteúdo em proveito do seu continente, colocado numa superfície plana e decomposto segundo as passagens da imagem registadas pelo olho, como uma justaposição de decalques sucessivos.

Assim, Lourdes Castro reensina-nos a ver o mundo e a nós próprios, sob a verdadeira aparência expressiva: a sombra não é a antítese da luz mas o perfil da nossa própria dupla opacidade, do nosso eu subterrâneo e obscuro. Os seus desenhos são, ao mesmo tempo, pergunta e revelação; conduzem o olhar numa sucessão de itinerários reais que se organizam em redes puramente mentais; a sombra projectada de um objecto é esse objecto desmultiplicado, explicitado e, finalmente, posto a nu. Uma espécie de "strip-tease" a partir do interior.

O seu "Grand Herbier d'Ombres", executado na Madeira, durante o Verão de 1972, é maravilhoso; ele comporta as sombras projectadas, apreendidas sob sol directo, de uma centena de plantas diferentes, com as suas etiquetas, e é admirável ter perante os nossos olhos essas sombras inundadas de luz e de seiva, em pleno crescimento, onde a poesia dos contornos se encontra com a respiração da própria vida.

Pierre Cabanne, "Le Matin", 1978