PIRES VIEIRA SALA DE PEQUENOS ARQUIVOS 30.06.2002 — 30.08.2002

A PORTA33 inaugura hoje, dia 30 de Junho de 2001, às 18 horas, e com a presença do artista, uma exposição de Pires Vieira, intitulada "Sala dos pequenos arquivos". A exposição estará patente ao público de terça a sábado, das 15 às 20 horas, até 30 de Agosto. A inauguração será acompanhada de uma visita guiada por Miguel Wandschneider.

Duas instalações, realizadas este ano e estreitamente ligadas entre si, compõem a exposição: a que lhe dá o título e outra intitulada "Da fragmentação do olhar". No cerne destas instalações estão duas questões com que o artista vem lidando desde 1994: a representação do desejo e a filtragem deste pela memória. Por um lado, a noção de memória é enfatizada pela figura do arquivo. Por outro, as tensões e a violência associadas ao desejo, que arrastavam consigo o tema da morte, desvanecem-se pela desdramatização ao nível da figuração, pela remissão para um passado supostamente encerrado através da ideia de arquivamento e pela introdução da cor, que nos afasta do negrume de trabalhos anteriores.

Desde a série "Aproximação a um inventário dos desejos reprimidos", de 1994, e também nas instalações agora mostradas, o trabalho de Pires Vieira articula-se em torno de uma lógica narrativa auto-referencial, mas aberta às projecções do espectador, a partir da qual se forma uma rede de significados. Deste modo, o artista distanciou-se da sua prática pictórica dos anos 70, centrada na desconstrução analítica dos elementos constituintes da pintura (como o suporte e a cor), alheia a significados exteriores às questões internas da pintura.

Do ponto de vista formal, as duas instalações agora apresentadas retomam um princípio de inventariação de formas elementares conotadas com o corpo humano, assim como a construção de um sistema de variações a partir dessas formas, iniciados com a série "Aproximação a um inventário dos desejos reprimidos" e prosseguidos nas séries "Mostruários", de 1995, e "Vestiários", de 1996, em que esta exposição se filia directamente. O princípio de inventariação e o sistema de variações reiteram, mais uma vez, o carácter obsessional subjacente aos trabalhos. De resto, a serialidade é uma característica do trabalho de Pires Vieira desde o final dos anos 60.

Como tem sido habitual nos últimos anos, em "Da fragmentação do olhar" e "Sala dos pequenos arquivos", o artista situa o seu trabalho (neste caso, de pintura) num regime de instalação, em que a inteligibilidade das partes depende da configuração de uma totalidade, não necessariamente fechada, que se adivinha em processo de construção — aqui identificada com a figura impessoal do arquivo e já não com a do sujeito (do desejo e da memória).