RUI CARVALHO
Desenhos e Pinturas
PORTA33 | ARCO´05 — 10.02.2005 — 14.02.2005

RUI CARVALHO — ARCO´05 MADRID

RUI CARVALHO
“Sem título”, 2001.
Técnica mista sobre papel, 32x24cm

Universos Paralelos

Um percurso singular e itinerante pela banda desenhada e pela pintura

RUI CARVALHO PORTA33, Funchal (Até 9 de Julho 2000)

Rui Carvalho é praticamente desconhecido entre nós. Nascido no Funchal em 1964, aí se tornaria amigo de Rigo e António Dantas, com eles passando a colaborar nas realizações de fanzines e em algumas exposições colectivas que tiveram lugar em Lisboa, sobretudo nos últimos anos da década de 80. Foi por essa altura que organizou a mostra colectiva "Do Atlântico para a Costa Oeste", com passagem pela Artist's Television Acess (São Francisco 1988), onde colaborou com uma série de pranchas de BD em que o traço infantil e grotesco, não naturalista, forjava já uma crítica mordaz e irónica à vivência da cidade.

Muda-se pouco depois para Zurique, mas é em Berlim que se iria fixar até 1998, articulando durante esse período a prática do desenho entendida como exorcismo de inquietações pessoais, temperado por um colorido intenso e feérico, e com circulação restrita ao círculo de amigos, com a elaboração de pranchas de BD que pontualmente viria a publicar juntamente com outros criadores portugueses.

É o caso da fanzine "Besta Quadrada", deixada agora à consulta na livraria da Porta 33, na qual se folheia um dos episódios da sua série "Paredes Ocidentais" (92), mostrando-se ainda no mesmo espaço as pranchas originais dos novos desenvolvimentos que a historia iria conhecer nos anos seguintes, com o título entretanto alterado para "Muros Ocidentais", possivelmente numa alusão mais explícita à queda do Muro de Berlim.

Nos desenhos realizados ao longo dessa estadia ou exílio intencional, e a que a presente exposição confere um acertado destaque, esse posicionamento crítico que já encontrávamos nas suas tiras desenhadas revela-se bastante mais voraz, frenético até, porque embora resulte de um mesmo processo cumulativo e sincrético de referências, reinventando a uma escala emocional e simbólica a paisagem urbana e os seus habitantes, superlativiza pela a estridência visual das suas composições ficcionadas, chegando a adivinhar-se um preenchimento compulsivo do papel, como se de um grito enfim solto se tratasse. E é nesse registo expressionista, que nalguns casos chega a lembrar o traço incisivo de Ana Cortesão, que desfilam os vícios e costumes das suas personagens, as suas angústias pessoais, por vezes numa intensidade existencial próxima de um auto-retrato ou numa denuncia viperina dos círculos de poder, como um Nixon retratado deixa supor.

Outros aglomerados urbanos e rostos anónimos, muitas das vezes vigiados por discretos soldadinhos, confirmam o trânsito de motivos e obsessões entre os desenhos autónomos e as bandas desenhadas, seguindo uma estratégia de contaminação e revisitação que as suas pinturas recentes, produzidas já no âmbito desta exposição, tentam recuperar sem mais-valias. Perdem nessa quase trasladação a intensidade e o invento que notabilizam alguns dos seus desenhos mais antigos, estes sim plenos de curiosas vibrações onomatopeicas e analogias epidérmicas, esfuziantes na sua abordagem do vegetal e do animal, como as flores de onde desabrocham arranha-céus, os corpos humanos convertidos em escamas, ou os peixes que, num semblante enigmático, nos olham das suas constelações aquáticas.

E é nessa coabitação de registos tão díspares nas suas intenções e resultados que encontramos ainda as vistas quase pitorescas que Rui Carvalho tem vindo a pintar e a vender nas ruas da capital lisboeta ao longo dos últimos dois anos, numa atitude sincera que só vem confirmar a progressiva demissão de propósitos e soluções a que os seus trabalhos mais recentes se viram votados, já só com breves rasgos dessa compulsão criadora que irradia dos seus desenhos berlinenses. São eles que nos prendem e nos surpreendem, pelo modo pujante e singular com que distorcem ou filtram as realidades de onde partem, dando sentido e significado a esta arriscada aposta.

LÚCIA MARQUES
Expresso, 17 JUNHO 2000