JOÃO QUEIROZ
PINTURA
PORTA33 — 27.11.2004 — 11.12.2004

Forma de representação que implica uma intensa investigação tanto sobre as modalidades de percepção como sobre as técnicas e as gramáticas específicas, a pintura coloca constantemente, tanto ao autor como ao apreciador, problemas que ultrapassam o mero efeito visual ou os métodos utilizados para o alcançar. O modo como João Queiroz tem conduzido a sua reflexão acerca da pintura é um excelente exemplo disso mesmo, e a paisagem tem sido, nos últimos anos, o género predominante no qual podemos apreciar os progressos desta investigação.

Nos últimos trabalhos de João Queiroz — seis telas em torno das levadas da Madeira —, a paisagem regressa depurada e meditativa. Do exercício contínuo de exploração dos/nos limites da pintura e do desenho, no método e abordagem, a sua pintura parece surgir, cada vez mais, como expressão de liberdade e disciplina; e é também como simultaneamente livres e disciplinadas que estas paisagens nos aparecem. Uma pintura vibrante, honesta e rigorosa, que pode ser (melhor) compreendida como orientada no sentido de um apuro e de uma exigência que são tanto de arte como de humanidade.

Manuel Rodrigues
Lisboa, Novembro de 2004

João Queiroz . PORTA33

Manuel Rodrigues

Quando há umas semanas me foi pedido um pequeno texto de apresentação desta série de trabalhos achei que era pertinente mencionar a qualidade ‘depurada e meditativa’ destas novas paisagens e que, com elas, a sua pintura surgia como ‘expressão de liberdade e disciplina’. Qualifiquei-a então de ‘pintura honesta e rigorosa’...

Aquilo que posso dizer agora, neste contexto — tendo todos aqui presente o autor que, melhor que ninguém, falará do seu trabalho, da pintura e desta exposição, em particular —, deve-se não apenas ao facto de o trabalho do JQ sempre me ter feito pensar acerca das condições da criação artística hoje — e, de certo modo, isso revela-se nos textos que ao longo dos anos fui escrevendo a propósito da sua obra — mas, também, ao facto de o seu percurso enquanto artista, tanto na pintura como no desenho, me parecer um bom exemplo de exigência ética, ou melhor, de como essa exigência ética pode/deve fazer parte integrante da criação artística. E isto de vários modos.

Por um lado, e primeiro lugar, porque ao reflectir uma constante procura de novas modalidades de percepção e representação da realidade, o seu trabalho exprime um desejo de desvio crítico daquilo que é a herança, do que foi assimilado da tradição — o que, naturalmente, só se consegue depois de ter adquirido uma cultura histórica sólida, como a que o JQ possui. De facto, só o conhecimento profundo, a assimilação (ou o amor à lei, parafraseando Kant), só uma prévia ‘obediência’ à tradição nos permite aspirar ao desvio crítico, i.e., à elaboração de algo que seja para os outros um novo aspecto dessa lei. A nossa tradição, a tradição ocidental, é feita de desvios críticos, a nossa lei é ela mesma uma série de camadas e de sedimentos de desvios conseguidos. Por outro lado, e em segundo lugar, porque esse desvio tem um sentido que é o da aprendizagem permanente de si mesmo e do mundo — das coisas e dos outros — e, nessa medida, o resultado do trabalho pode representar para o público, para cada um de nós (e creio que este representa) um momento privilegiado de transformação do olhar, mesmo acerca do que já conhecemos ou julgamos conhecer. Deste ponto de vista, a exigência ética é tanto de elevação ou amadurecimento pessoal quanto é de entrega (ou devolução) ao outro — o seu público —, ela implica a dedicação ao outro do resultado desse esforço.

Creio que este pode ser o critério que permitirá fundamentar a apreciação da arte e do seu valor, sem que se perca de vista a necessária prova a dar do domínio das gramáticas que constituem as principais referências históricas da sua área. Julgo que nos podemos e devemos questionar quanto é que, de cada obra, se pode aprender, quanto é que ela nos enriquece. A consequência disto, penso eu, é que sem um público crítico, i.e., que seja também capaz de impor para si as mesmas exigências, nos podemos vir a confrontar com a perda de toda e qualquer base para a avaliação que não se apoie apenas no gosto ditado pela moda ou nas tendências do mercado — movido por interesses nem sempre transparentes.

Qualquer trabalho criativo sem este suplemento não pode constituir-se como forma de resistência às formas de apatia acrítica para que tende toda a cultura que se deixe embalar pela inércia dos sistemas. Sem essa exigência não se pode com propriedade falar de um trabalho honesto ou de um trabalho generoso, tanto do ponto de vista estritamente plástico como do ponto de vista pessoal. Se não queremos que a arte se transforme em mais um símbolo fútil de prestígio, social, cultural ou político, ou numa sub-espécie de entretém mais ou menos decorativo — por mais estridente e ‘vanguardista’ que apareça — julgo que se deve exigir, tanto da obra como do autor, que sejam sinais dessa exigência e do esforço correspondente que, dando conta do seu tempo e da sua situação, não seja um mero reflexo das próprias ‘preocupações subjectivas’ ou um jogo infindável de auto referencialidade, muitas vezes elaborado à custa da exploração infindável de fórmulas (que um dia obtiveram qualquer tipo de ‘aplauso’) que não são mais que exercícios de auto-comprazimento e de auto-promoção. De todas as formas de arte devemos esperar que sejam modalidades (assim como de cada obra um momento) de constituição de uma consciência crítica capaz de comunicar com a alteridade e de dialogar e de levar a dialogar com a diferença de uma forma adulta.

De acordo com isto, pode-se dizer que o princípio que pode sustentar a vida interna da arte — a relação possível de proximidade entre autor e público através do trabalho criativo e da sua divulgação criteriosa —, é o princípio da prevalência do Outro. E não apenas porque nós próprios não somos nunca suficientemente justos na nossa auto-avaliação, o nosso ponto de vista é sempre um ponto de vista relativamente viciado e tendencioso. Apesar de essenciais, a exigência que cada um mantém para consigo e a exigência que podemos dirigir aos outros, não são suficientes se não exigirmos também dos outros que exijam de nós. Que não nos deixem adormecer, que imponham que nos superemos é o que deveremos esperar dos Outros — é esta a melhor forma de nos assegurarmos que todos fazem o que podem para que cada um se torne melhor pessoa. Sem Outros exigentes não poderemos confiar inteiramente em que nos superemos. “O que pensa opõe resistência” diz-nos Th. Adorno, e isto porque existe uma tendência dominante para seguir o impulso da inércia, segundo a lei do menor esforço e do menor sacrifício — como, infelizmente, por sua vez, essa inércia, parece tender a dissolver os esforços de resistência. Ora, não há resistência definitiva nem muito duradoura, esta é uma tarefa nunca acabada. Aquilo que uns fizerem deverá ser permanentemente retomado e continuado. Pensar enquanto forma de resistência é uma exigência e uma luta, assim como criar. Acredito que a simplificação é um objectivo desta exigência ética, e da consciência crítica que ela implica, no mundo da arte ; é por ela que se pode chegar à liberdade — uma liberdade humilde e disciplinada —, assim como à autonomia em relação às armadilhas da inércia e da satisfação auto-complacente. Essa simplicidade e essa autonomia não se conseguem sem os outros.

Julgo que essa simplicidade e essa riqueza se pode perceber no trabalho de JQ, e neste agora exposto em particular, onde as linhas livres da natureza se aliam e complementam com as formas com que o artifício humano disciplinou as águas com as ‘levadas’.

Manuel Rodrigues, Novembro 2004

João queiroz
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