“O Ilhéstico é, para mim, um exercício muito radical”
Entrevista a Miguel von Hafe Pérez, curador

Por Susana de Figueiredo

 

Mais do que uma exposição, “um roteiro de arte contemporânea para a cidade do Funchal”. Um acontecimento inédito, realizado com o apoio da Câmara Municipal do Funchal, a que a Porta 33 chamou Ilhéstico. O nome é inspirado na célebre série de pinturas de Álvaro Lapa, intitulada Campéstico, em que os conceitos campo e doméstico se intersetam.

Ilhéstico é uma construção ambiciosa erigida por uma frente de 45 criadores, 45 a celebrar os 30 anos da Porta 33, polo cultural que, ao longo das últimas três décadas, tem servido de pouso e rampa de voo a várias gerações de artistas. Gente cheia de mundo dentro; gente que, a partir deste território, quis e soube erguer a sua voz no mundo.

A 5 de setembro, começa esta viagem intensa pela nossa cidade, com intervenções nalgumas das suas mais emblemáticas moradas. Além da Porta 33, outras portas se abrirão a esta ‘festa’: lojas centenárias, museus, monumentos e outros espaços culturais irão acolher criações declinadas nas mais diversas linguagens artísticas.

Ilhéstico propõe uma redescoberta do corpo da cidade, numa perspetiva contemporânea, através da sua paisagem, da sua arquitetura, da sua história e das suas vivências. Ilhéstico é, por isso, muito mais do que uma exposição; é uma experiência, ou melhor, uma convocação para um encontro de experiências, que se manterão vivas no tempo e no espaço. Miguel von Hafe Pérez, amigo de longa data da Porta 33, e curador do projeto, não faz por menos. Nem poderia, nem saberia. Nesta entrevista, explica porquê e fala-nos em pormenor do [tanto] que aí vem. Do princípio de tudo a este “exercício radical”.

 

 

 

Ao longo dos últimos 30 anos, Miguel von Hafe Pérez já trabalhou com mais de mil artistas. Diz que a arte está íntima e irremediavelmente ligada à vida e não tem dúvidas de que a arte mudou a sua vida. Cedo, com apenas 15 anos, altura em que um professor do secundário o confrontou com esse olhar. A relação com a Porta 33 também vem de longe, e nasce de uma admiração e empatia filosófica que perduram até hoje.

Comecemos pelo princípio, pelo laço com a Porta 33. Sei que a sua relação com o Maurício e a Cecília é antiga; mas como acontece este encontro?

A minha relação com a Porta 33 começa por ser uma relação de observação à distância. Sempre olhei para a Porta com uma enorme curiosidade e ‘estranheza’.

Estranheza?

Sim, achava estranho que, naquela altura, anos 90, todos aqueles artistas que eu percebia que estavam a determinar de forma incisiva o contexto cultural iam fazendo exposições na Porta, na ilha da Madeira. E é claro que aquilo me deixava curioso em relação ao trabalho que ali estava a ser desenvolvido. Passado algum tempo, não sei precisar quando, talvez em 1999, no Porto, conheci a Cecília e o Maurício. Depois, estivemos juntos muitas vezes, na Arco, em Madrid.

A Arco marcou um ponto de viragem no contexto artístico nacional.

Completamente. Foi uma espécie de revelação, neste acerto da Península Ibérica com a Europa. Ainda há dias falava sobre isso com a Cecília, e sobre aquele arejo do Bairro Alto, na altura do boom criativo dos anos 80 [riso].

Respirava-se algo de muito novo em Portugal.

Sim, foi fantástico. Todo aquele boom criativo levou a que houvesse uma esperança muito grande em Portugal.

E se há sentimento que conta grande parte da história da Porta 33 é precisamente a esperança; mas não é uma esperança qualquer… é uma esperança de fundações firmes, profundas, uma procura constante por novos ‘ares’, por uma universalidade, a partir de uma geografia difícil, de isolamento. É, aliás, neste olhar voltado para o mundo que encontram pessoas como o Miguel von Hafe Pérez, com quem dividem esperanças e projetos.

É verdade. A Cecília e o Maurício foram-me convidando para colaborar com a Porta, e eu tenho aceitado sempre estes convites. Percebi, desde o início, que tinha uma espécie de frequência de onda parecida com a deles, uma onda que tem que ver com esta noção de que projetos que sofrem de um certo isolamento têm um grau de heroicidade interessante. E tenho a certeza absoluta de que foi com este entendimento, e com uma imensa curiosidade, que muitos dos nomes mais sonantes da arte contemporânea portuguesa têm colaborado com a Porta.

Os artistas costumam partilhar consigo esse entendimento?

Costumam, e sempre que falo com qualquer artista e comento que estou a colaborar com a Porta, são incríveis as reações: “ah, que bom! Que saudades… manda cumprimentos”. Isto é um património imaterial inacreditável.

Há uma experiência individual forte que liga estas pessoas à Porta.

Com certeza. Há uma experiência muito vital, que é uma experiência institucional, mas é também uma experiência mediada a partir do próprio território da Madeira, e que deveria ser reconhecida. Esta é uma experiência que a Porta facilita, mas que, muitas vezes, não foi aproveitada.

E porque é que isso acontecerá? Poderá ter que ver com algum vazio de massa crítica?

Todos sabemos que a Madeira tem um défice de massa crítica, isso é inevitável, mas outras das razões poderá ser o facto de, por vezes, a Região não olhar para os seus como parceiros válidos e preferir a efervescência dos soundbites. Só que a arte não é isso, é algo diferente, algo que pode desapontar.

Desapontar em que sentido?

No sentido em que nos interroga. Por exemplo, se, nos anos 60, víssemos uma sombra da Lourdes Castro, com certeza ficaríamos surpresos e baralhados, a tendência seria preferirmos qualquer coisa neoexpressionista.

Menos inquietante.

Exato; no entanto, a arte é precisamente essa inquietação, é aquilo que nos interroga, e aquilo que perdura. E é a esse nível que eu e a Porta tentamos trabalhar. Podemos enganar-nos, pode haver a arrogância do erro, mas eu digo sempre que a História é uma juíza implacável, e o confronto da história da Porta com a História é inabalável, ao contrário do que sucede com muitas outras realidades, neste território. Esse juízo histórico está lá, para o bem e para o mal, e, portanto, creio que se percebe porque é que sempre me interessou tanto qualquer tipo de colaboração com a Porta.

É uma relação de inquietação, também.

É.

Quando o Maurício e a Cecília o desafiaram para assumir a curadoria do Ilhéstico, um projeto que celebra os 30 anos da fundação da Porta 33 - sei que as vossas conversações começaram há cerca de dois anos -, o que mais o cativou nesta iniciativa e o que o levou a querer ampliar ainda mais o conceito inicial, que comportava um número menor de participantes?

Atraiu-me, desde logo, o elevado grau de dificuldade do projeto[riso], o desafio; não tinha como recusá-lo, até pela relação que mantenho com a Porta. Quando o Maurício e a Cecília me disseram que queriam trabalhar com artistas que, de alguma forma, acompanharam o percurso da Porta, eu achei o conceito interessante e, a certa altura, por defeito pessoal e por megalomania [riso], pensei: então, vamos lá fazer uma coisa em grande.

Uma atitude ambiciosa. E apaixonada, diria.

Eu diria que o Ilhéstico é, para mim, um desafio e um exercício muito radical, porque, destes 40 artistas, eu conheço menos de 15. Vou ter de me confrontar com universos que nunca me havia confrontado, mas, tendo eu esta enorme confiança no trabalho da Porta, não hesitei em avançar.

E este é um evento que homenageia o trabalho da Porta e os seus ‘frutos’?

Sim. Acho que, simbolicamente, era importante marcar esta presença da Porta na cidade que a acolhe. E ao criarmos este radar, formado por artistas que acompanharam a Porta ou nasceram ao mesmo tempo que ela, surge uma dinâmica absolutamente inevitável, que é a dinâmica da diáspora - pessoas que saíram e iniciaram as suas carreiras no continente ou fora do País – Acreditamos que esta dinâmica, tendo como epicentro a Porta e a cidade do Funchal, trará um reconhecimento que não existia, inclusive um reconhecimento entre os próprios artistas participantes, porque muitos deles não se conhecem entre si. E isto é muito bonito.

O encontro e o cruzamento de experiências entre pessoas que partilham a mesma raiz: a ilha.

É isso; dizer: estamos a falar a partir de uma ilha, com muitas pessoas que estão em territórios distintos, quer físicos quer mentais.

E há, ainda, o encontro dos que daqui partiram com aqueles que por cá ficaram. Mais um patamar que se acrescenta a este rol de experiências.

Sim. E é engraçado esse confronto dos que partiram da ilha com os que ficaram, que não quer dizer que sejam piores por terem ficado, são apenas experiências diferentes, e é este convocar de experiências diversas que forma este tecido tão rico.

Mas, por vezes, parece haver a ideia de que aqueles que aqui ficaram, de alguma forma, ficaram para trás. Há uma certa estigmatização.

É verdade, há um pouco essa ideia, mas repare, é muito curioso que os artistas, até aos 50 anos, que têm maior visibilidade em Portugal, o João Maria Gusmão e o Pedro Paiva, são artistas que nunca saíram de Lisboa, e nunca o fizeram sabendo que o mundo, hoje em dia, está estruturado de uma maneira que lhes permite isso. Os artistas portugueses dos anos 60 e 70, como o Alberto Carneiro ou o Ângelo de Sousa, entre muitos outros, milhares de artistas, tiveram oportunidade de ir estudar no estrangeiro, através de subsídios da Gulbenkian, no entanto, não tinham oportunidade de ter uma visibilidade internacional, porque não existiam canais para esse efeito. Hoje, o paradigma é outro, os canais são imensos. A Porta aposta muito na Internet, daí a sua dimensão global. É uma estratégia inteligente, porque é importante essa ressonância daquilo que se faz localmente, e em contextos pequenos, sobretudo, a estratégia tem de ser muito bem pensada. Três linhas publicadas em Berlim, por exemplo, podem fazer toda a diferença.

Este roteiro de arte contemporânea que o Ilhéstico vem inscrever na cidade do Funchal é muito mais do que um roteiro físico e geográfico, é um roteiro conceptual e muito ‘sensitivo’, que vai à procura do público, expondo-se diante dele. É um roteiro de ‘espaços’ e ‘tempos’, que, ao mesmo tempo, oferece ao fruidor a possibilidade de uma nova relação com para a cidade.

É um roteiro que inscreve a própria cidade nessa realidade. Fazer um percurso pela cidade e perceber as suas diferentes realidades, como uma loja praticamente desativada ou um museu em pleno funcionamento. São diversos graus de uma mesma realidade urbana que se põem em evidência. Interessa-me perceber a relação que o espetador pode manter com esse reconhecimento da cidade numa circunstância diferenciada.

Propõe uma recontextualização da cidade.

Exatamente. É óbvio que as realidades vão mudando, há coisas que desapareceram, mas, pelo menos, espero que um projeto como este chame a atenção para essa mudança. Acredito piamente que não conseguimos, através da arte, mudar o mundo, mas conseguimos criar um espetador que tenha uma visão diferente do mundo, e depois cada um tem a responsabilidade de continuar esse processo. A Guernica não mudou mundo nenhum, mas influenciou milhares de pessoas a construírem um pensamento sobre o mundo.

De que forma a arte influenciou o seu pensamento sobre o mundo?

A minha vida mudou graças a um professor que tive no secundário. Através da arte, ao falar-me de arte, aquele professor mudou a minha vida. Posso estar a iludir-me há muitos anos, achando que estou a fazer alguma coisa importante, mas se, ao longo destes 30 anos em que estou profissionalmente ativo, tiver conseguido fazer com algumas pessoas o que o meu professor fez comigo, fico feliz. E acho que essas pessoas serão mais críticas em relação ao que se passa à sua volta.

A arte como construção…

É um caminho para isso, embora não seja o único. A política, por exemplo, na sua essência, pode ser outro dos caminhos, a intervenção social também. Ou seja, há vários caminhos, não podemos é dizer que uns são melhores do que outros. Mas qualquer que seja o caminho, a arte é fundamental para a construção do pensamento crítico. E a edição é também muito importante.

A edição? Como assim?

Sim. Todos nós editamos aquilo que queremos para a nossa vida. Há muitas interrogações, e estas são muito mais importantes do que as respostas certas, porque as respostas certas esgotam-se em si mesmas. Já esta minha interrogação: ‘o que é que eu ando aqui a fazer há 30 anos?’ é uma interrogação vital. São as interrogações que nos tornam mais completos e nos impedem de desistir, pois nunca se esgotam em si mesmas.

A arte funda a não desistência?

Sem dúvida. E, no contexto nacional, falta muito essa relação primeira e imediata com a arte. No Japão, as crianças começam a aprender música aos 4 anos e, aos 6, ouvir Mozart e Beethoven é, para eles, tão natural como comer pizza ou hambúrguer. Não é por acaso que, hoje, a maior parte dos instrumentistas são asiáticos. Essa exposição, desde cedo, à arte é fundamental.

No entanto, ainda há quem esteja convencido de que a arte não é para todos…

Na arte, como na literatura, há graus de entendimento que se vão aperfeiçoando. O século XX trouxe à arte uma complexidade que vai além da pura visualidade. O que acontece, muitas vezes, com a arte contemporânea é a arrogância de as pessoas acharem que vão perceber tudo. Há um determinado número de regras, que podem ser básicas, para percebermos mais ou menos o que estamos a ver, mas claro que, dentro da arte, há universos que exigem de nós um conhecimento, inclusive histórico, muito mais profundo, sob pena de haver uma expurgação da riqueza intrínseca da arte. Na arte antiga sucede o mesmo; em termos iconográficos, oitenta por cento das pessoas não percebe aquilo que está a ver. Ou seja, se não conhecermos minimamente a História não nos vamos emocionar tanto. A arte é assim, está ligada à vida.

E, nesse sentido, poderá estar íntima e inevitavelmente ligada ao lugar onde nascemos ou vivemos? Poderá esse lugar, sobretudo se for uma ilha, votar, de alguma forma, quer o criador quer o fruidor a um certo confinamento?

Uma das poucas coisas que a vida me ensinou tem a que ver com essa perspetiva. O isolamento nunca foi, em termos culturais, uma desvantagem, bem pelo contrário, na maioria das vezes é, até, propiciador de uma grande abertura.

Aguça a curiosidade, provoca uma fome de mundo mais voraz?

Sim, creio que provoca algo relacionado com a noção de que temos de nos ligar a alguma coisa, e a fuga faz-se através de uma experiência de universalidade, que é, talvez, mais bem-sucedida quando se consegue ter uma voz própria a partir de territórios indefinidos.

E, por vezes, improváveis.

E, por vezes, improváveis, quando alguém se inscreve nessa universalidade.

O Ilhéstico reúne 40 artistas madeirenses que foram capazes de erguer a sua própria voz nesse contexto de universalidade. É uma bela amostra. Enquanto comissário da exposição, que provocação maior gostaria que esta suscitasse no público?

Gostaria, essencialmente, que houvesse um reconhecimento de que a arte contemporânea coloca interrogações e que as pessoas percebessem que quem coloca essas interrogações teve de pensar sobre elas. Espero que as pessoas olhem para este território como um território possível para uma relação mais séria com a arte contemporânea, uma relação que não é a ‘relação-espetáculo’ mas uma relação especulativa.

Fará sentido falar de uma matriz insular, do ponto de vista artístico, que cirze a linguagem e o pensamento deste conjunto de criadores?

Não, acho que não faz sentido. Sempre resisti, em variados contextos, a essa ideia.

Porquê?

Parece-me uma ideia redutora. Por exemplo, falar sobre a morte é uma coisa de ilhéu ou de africano?

É uma coisa de comum-mortal, parece-me.

Exato, é aí que quero chegar. Acho redutor pôr as coisas nesses termos. É como falar do atlantismo, do lirismo, do fado… Sempre combati essa questão da ‘identidade’, e se esta existe tem de ser tão específica e tão natural, tão pessoal, que tem de se sublimar, não pode é sobressair. Um ilhéu não tem de representar o mar ou as tradições locais; pode fazê-lo ou não.

E de um sentimento ‘Ilhéstico’, podemos falar? É um sentimento bastante heterogéneo.

É, completa e felizmente [riso]. É um sentimento feito a partir do sítio e também do não-sítio, e é isso que traz densidade à ilha. A densidade daquilo que é esta ilha não se faz só a partir do que foi produzido na ilha, mas também a partir do que foi produzido na distância da ilha, e que é tão complexo e tão válido para a compreensão deste território como a vivência física deste.

 

Sobre Miguel von Hafe Pérez
Nasceu no Porto em 1967. Licenciado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Entre 1988 e 1995 colaborou com a Fundação de Serralves, onde coordenou o Serviço Educativo e foi assistente do director artístico. Entre 1995 e 1998 foi director artístico da Fundação Cupertino de Miranda em Vila Nova de Famalicão. Foi responsável pela área de Artes Plásticas, Arquitectura e Cidade do Porto 2001, Capital Europeia da Cultura. Entre 2002 e 2005 fez parte da mesa curatorial do Centre d’Art Santa Mónica em Barcelona. Foi responsável pelo projecto de arquivo sobre arte contemporânea em Portugal intitulado anamnese (www.anamnese.pt) - o site e o livro, desenvolvido para a Fundação Ilídio Pinho. Através de um concurso internacional foi eleito director do Centro Galego de Arte Contemporánea (CGAC) de Santiago de Compostela (2009-2015). Recentemente editou para a Fundação de Serralves uma antologia de textos críticos de Fernando Pernes (Dizer a imagem) e comissariou a exposição Álvaro Lapa. No Tempo Todo, no Museu de Serralves. Sócio fundador da Inc. – livros e edições de artistas, Porto. Curador do projecto Right Cloud@Wrong Weather no Porto. De 2013 a 2018 foi assessor do Conselho de Compras da Colección Fundación Arco.

Top